Apt 31 – Bloco 7 – Glória

“Eu sou feliz porque só vou lá para dormir, de manhã levanto e já corro para o circo!” Glória tem um apartamento no conjunto de prédios, mas nunca conseguimos encontra-la por lá. Sua entrevista foi feita no Circo dos Sonhos, que é onde passa o dia todo. Glória cuida dos sobrinhos, filhos dos artistas. “Já falei para o meu filho, vamos vender esse apartamento e comprar um trailer.” Glória foi casada com o palhaço Xispita que fazia dupla com o palhaço Alegria e vive ali “parada” há 22 anos. “Eu era de cidade, morava em Arica, a primeira cidade do Chile, aí montaram um circo perto de casa e eu fui assistir, ele fazia o número de arame que o meu menino faz, achei ele bonitinho. Aí o circo rodava pela cidade e eu ia atrás para namorar com ele.” Ela se apaixonou pelo palhaço aos 15 anos. Os pais não aceitavam “meu pai dizia, você quer casar com cigano mesmo? Ele nunca vai te dar uma casa e vai te encher de filhos. Mas não teve jeito, casei.” O marido de Glória era filho do dono do circo e ela foi embora com ele. “Vivemos 3 anos na Bolívia e daí viemos para o Brasil. Aí comecei a ter filhos, o primeiro nasceu no Mato Grosso e depois vieram os outros, são seis no total, quatro homens e duas meninas. Dois homens ainda estão no circo, um trabalha com vendas, não se encantou pelo picadeiro, e o outro é palhaço e faz número de arame, como o pai. É o palhaço Pepito.” “Ele não quis que eu fizesse nada no circo, só cuidasse dos filhos, às vezes eu vendia fotos, cuidava das vendas.” Glória se separou e foi viver nos sem terra. É emocionante ouvi-la falar sobre o terreno.“Era muito legal! Cheio de gente, que chegava e ia embora, chegava e ia embora… pessoal ensaiando malabares, bingo no bar da Marília, pessoal jogando futebol…era um lugarzinho bom.” Ela conta que o Alcides dava aula de circo para crianças e que quem organizava muita coisa por lá era a Boneca, esposa de Girabel. Os dois trabalhavam com magia. Boneca ficou doente e faleceu. “Depois que ela ficou doente, ninguém quis mais… todo mundo começou a trabalhar em circo-escola, só que não conseguiram levar circo-escola para onde nós estávamos porque tinham outros projetos para este terreno.” Hoje a neta de Glória é bailarina no Circo Espacial, ela fica no circo de sexta a domingo “mas eu falo pra ela, não pode faltar na escola, o que dá futuro é escola, não é circo. Circo você trabalha enquanto é nova, depois que fica velhinha não tem mais emprego.” Glória também contou que agora, muitos amigos “trabalham parados.” É bem interessante o quanto a história desta comunidade revela a própria história do circo… o momento em que os circenses pararam e começaram a dar aulas de circo, as mudanças que foram acontecendo nesse sentido, os filhos que estudam e que terão um futuro “trabalhando parados”. Mas ao mesmo tempo, Glória não consegue ficar no prédio… passa o dia todo perto da lona, dentro do trailer, perto de pessoas que ensaiam malabares, ensaiam números… ela está ali parada, cuidando das crianças, mas ainda dentro de todo este universo. E quando ela emocionada fala sobre o terreno e conta que tinha vezes que ele estava cheio de gente, de repente todo mundo ia embora, aí chegava mais gente, e ia embora de novo… parece que o terreno de alguma forma reproduzia o ir e vir do circo… o movimento… era quase uma transição mesmo. Eles estavam estacionados ali mas ainda viviam as idas e vindas. E isso deve dar uma saudade…

Priscila Jácomo

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por circoparaki

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