Apt 12 – Bloco 11 – Puchy e Loren

O nome dele é Armando Klenque mas, seu nome de palhaço ganhou do nome de batismo, todos só conhecem o Puchy.Isso normalmente acontece com os palhaços, o outro que entrevistamos nasceu Raul mas virou Pepin.

Puchy é da quinta geração de circo. Nasceu na Argentina, viveu num circo na Venezuela e aos dois anos veio para o Brasil. O pai tinha sido contratado por um circo, comprou uma casa e os filhos começaram a estudar. Puchy tinha vontade de ser veterinário, porque sempre gostou de bichos como o avô, que era domador. “Eu estudava e trabalhava no circo, fazia cachês.” Quando ele tinha 17 anos mais ou menos, os pais se separaram e ele foi com o pai para o circo. Foi trapezista, acrobata e trabalhava com cavalos no volteio, fazia salto mortal em cima do cavalo, parada de mão no cavalo, mortal do cavalo para o chão… e foi se aprimorando em animais. Aprendeu a trabalhar com elefantes. “Conheci um domador muito importante que me ensinou a domar um elefante em indiano”, “Porque normalmente o animal entende ou inglês ou alemão, que são vozes mais imperativas, mas este elefante acabou matando muita gente porque só entendia indiano, ninguém conseguia trabalhar com ela.” Ele conta que depois de um tempo este elefante veio para o Brasil e o chamaram de novo para cuidar dela, “quando ela me viu, ficou toda doida, porque o animal reconhece, né. Você sabe qual animal guarda mais rancor? O elefante. Pode passar muito tempo mas ela sempre sabe quem fez mal pra ela. Tinha um capataz que sempre que passava por um, batia, cutucava… um dia ele passou distraído e ela picou ele. Não tinha quem tirasse ele de lá. Morreu.” Essa confusão de ele e ela aí em cima também me confundiu mas logo Puchy explicou que não existe elefante, mas Lia. “Elefante macho é o mais difícil de ser domado, mesmo filhote já mata. Praticamente não existem elefantes machos trabalhando, só lias”. Fizemos a entrevista no apartamento de Puchy, todo enfeitado com palhaços e fotos de circo. De repente, começo a ouvir uns barulhinhos de pássaros “São minhas pombas!”. Ele pega uma delas que depois fica ali solta durante toda a conversa. “Aqui do lado tenho uma pata e lá as pombas. Outro dia deixei a gaiola aberta, estavam todas aqui esparramadas. A sorte que a janela estava fechada.” Puchy atualmente trabalha com magia e por isso as pombas e a pata.

Puchy tem uma recordação bonita do tempo que viveu no circo, tem saudades de tomar banho de bacia, de morar em barraco, de dormir em baixo da lona quando está chovendo e ouvir o barulhinho da chuva “são coisas que eu sinto falta, eu posso ter todo o conforto mas…” Eu já fiz de tudo em circo, já viajei o mundo inteiro, tinha prêmios, era reconhecido e ganhava bem. Comprei uma casa para um amigo, um outro amigo me ajudou a comprar um carro. Um ajudava o outro, era uma união.”

Ele conta que quando acabava o espetáculo todo mundo fazia churrasco, dançava e jogava baralho. “O povo de circo era muito unido antigamente, dono de circo, empregado, artista, todo mundo junto. Se eu ficasse doente, alguém de outro circo vinha se apresentar no meu lugar. Era uma família só. Claro que tinha rivalidade, dentro do picadeiro, na hora do número, um queria agradar mais que o outro, mas era sadio. Hoje as famílias são separadas, antigamente era uma família só. Puchy vê muita diferença de alguns circos hoje e os circos de antigamente. “Hoje é assim, quem faz malabares, só faz malabares, o trapezista só faz trapézio. Eu sempre detestei parada de cabeça, mas sei fazer. Eu detestava mas meu pai me punha. Ali naquela foto estou no arame fazendo parada de cabeça.” “Hoje, se o circo não tiver cheio, o artista entra diferente, com uma maquiagem diferente, não capricha no figurino. Antigamente, se tinham 3, 4 ou 5 pessoas assistindo o espetáculo era o mesmo! Mesmo num circo de 60 metros com 4 pessoas! Hoje eles cortam números.” Puchy viveu no terreno de trailers, foi viajar e quando voltou já tinha acontecido a invasão. “Em frente do meu trailer tinha até jardim, era muito bem cuidado.” No terreno, os trailers estavam dispostos como um circo, um ao lado do outro formando um grande circulo. “Quando voltei de viagem, tinha virado uma favela”. “O pessoal de circo não é de bater de frente. Aí eles começaram a sair porque ficaram com medo. A gente roda o mundo inteiro e conhece o alto e o baixo de todos os países então a gente sabe entrar em lugar bom e sair, entrar em lugar ruim e sair.”Ele conta que conhece o Brasil todo, “não só Campinas, Rio de Janeiro… no norte era assim “me empresta a luz? E as pessoas chamavam para tomar banho na casa delas, aí a gente começa a pegar raiz, eles te davam café… a gente vira da famíla e são amizades que a gente cultiva até hoje.”

Puchy é casado com Loren. Loren também é argentina, sua mãe trabalhou no circo Tihany quando criança fazia dança húngara no espetáculo. O circo veio para o Brasil e as crianças começaram a frequentar a Escola Nacional de Circo. “Eu era apaixonada por contorção.” Loren estreiou seu número de contorção no programa do Carequinha na rede de TV Manchete. Em seguida, trabalhou com a Xuxa na Manchete e na Globo, fez a abertura do programa Balão Mágico e participou com o seu número em todos os programas infantis da época. “eu era a menina que fazia contorção na caixa.”

http://www.youtube.com/watch?v=jDp_hJVuksg  (abertura do Balão Mágico – 1984)

Loren conheceu Puchy aos 7 anos. Ele trabalhava no circo Bartolo que estava na praça XV no Rio. O pai de Puchy, Sr Oscar era professor de Loren e levou a menina para assistir o filho. Puchy fazi arame e bambu no espetáculo. “Eu já falava para o pai dele que ele ia ser meu namorado. Achei ele lindo no arame.” O sr Oscar dizia que a moça ao lado de Puchy era sua irmã mas na verdade era a esposa dele. “Aí eu tinha uns 15 anos e fui fazer um show em uma empresa. O Puchy estava lá fazendo show de magia. Eu sempre gostei de ser partner, e aí fui partner dele. Na época ele estava casado com outra mulher. Mas eu errei tudo, não coloquei a pomba no aparelho, ele abriu e não tinha nada. Ele ficou muito bravo. Aí eu falei, gente mas ele vive casado! Aí quando eu tinha uns 17 anos, encontrei com ele  de novo no circo do Xuxu, aí ele separou e nós ficamos juntos. Já faz 20 anos.”

Os dois são professores de circo e é lindo ouvi-los falar sobre as aulas, sobre os alunos, sobre ensinar a tradição, a arte do circo. Atualmente eles levam muitos alunos para trabalharem com eles que recebem como profissionais. “Já mandamos alunos para o México, para Cuba, são bons! Tem um que tirou a mãe da favela, comprou carro, isso dá muito gosto para nós.” “A gente fala que quem é de circo tem uma química, tem serragem na veia, mas a gente brinca que também pode colocar a serragem, como eles colocam o soro no hospital… é prazeroso ver uma criança que vem da favela, que não tem aquela atenção de pai e mãe… você acaba se apegando e dá carinho, dá afeto, cuida de outro jeito.” Puchy conta que não ensina só a subir nos aparelhos mas também ensina a montar, a desmontar. Ele mesmo faz os equipamentos e leva para a escola. Na época estava procurando uma madeira especial para fazer uma báscula.

Tive o prazer de ser convidada por eles para participar como partner na apresentação que fizemos em homenagem ao Dover Tangará. Foi uma experiência linda que tive e uma aula maravilhosa. Conto mais sobre isso na página paralá deste blog.

Priscila Jácomo

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