Apt 13 – Bloco 11 – Marília de Dirceu

Nós temos dois grandes protagonistas nesta história, Dover Tangará e Marília de Dirceu. Se você der uma lida na página “antes daki” deste blog vai entender um pouco. Conheci a Marília no ano passado, “a mulher mais forte do mundo”, foi portô de voo de um volante de 80 quilos, foi uma das primeiras mulheres motoqueira do globo da morte e tem toda esta força concentrada num corpo bem pequeno, mais ou menos um metro e meio de altura.

Marília é cria do Circo Garcia, nasceu e foi criada lá, seus pais trabalharam 62 anos neste circo. “Meu pai sempre quis que eu aprendesse muita coisa. Tive uma infância muito bonita.” Marília estudou em um colégio de freiras no Tucuruvi, em São Paulo, dos 6 aos 10 anos. Era um colégio interno. Depois seguiu com o circo. Começou a cantar profissionalmente aos 12 anos, estreou no Teatro Municipal do Recife, cantando “Aquarela do Brasil” com Geraldo Rios e uma orquestra. Em seguida, foi contratada por um programa de auditório no Recife chamado Vitrine. Logo depois começou a cantar na segunda parte do circo, que era show radiofônico. “Aí com 14 pra 15 anos eu casei, aí já nasceu a minha primeira filha. E foi por uma aposta que eu casei! Eu era a caçula das ingênuas do Garcia, tinha 15 anos. A Anita Garcia, uma mulher lindíssima, a Morfaia que também era linda e eu éramos as três solteiras do circo. Nesta época o Garcia contratou da Argentina o trio Scalli, que eram acrobatas famosos. Aí a gente combinou, vc namora o mais jovem, vc o do meio e a Anita ia namorar o mais velho. Aí quando eles chegaram, o mais velho era um coroa, o do meio já veio casado com a filha do Piollin e o que sobrou foi o Radamés, o mais jovem de 17 anos. Aí elas falaram, sobrou pra você!”. Mas eles ainda eram muito novos “eu vendia fotos naquela época, aí a gente esperava o circo lotar e ia namorar embaixo da geral. Aí acabei casando muito jovem.” Foi a primeira vez que Marília parou de trabalhar no picadeiro, porque além de cantar ela tinha números. “Eu fazia um número de escada que não existe mais, meu pai desenhou uma mesa toda cromada, com flores cromadas e o meu nome no meio, Marília. Em cima da mesa tinham 4 garrafas que equilibravam uma escada que ia até a lona do circo. Eu subia, fazia várias posições, que hoje fazem na corda e no tecido, e terminava equilibrando lá em cima.Mas depois parei de fazer. Meu professor ficava lá embaixo me olhando, me dando sinais para eu ficar em pé. Quando ele foi embora eu não conseguia mais subir, tinha muita confiança nele, aí perdi o número, não fiz mais.” “O outro número que eu fazia também era bem simples, mas agradava muito. Era com uma escada pendurada. Eu entrava, cumprimentava o público e meu pai trazia uma mesinha com uma jarra de água e um copo, tudo coisinha simples, pra criança mesmo porque eu era bem criançona, eu colocava a água no copo e botava na testa. Eu puxava a escada e ia subindo no balanço, equilibrando o copo até chegar lá em cima. Quando chegava lá, cumprimentava o público e tinha que descer por dentro do degrau com o copo na testa. Aí eu fazia de propósito, fazia uma contorção para o copo não bater e eu passava por baixo e o povo gritava pensando que ia cair.” Marília fez muitas coisas simples durante sua vida no circo. Foi uma das primeiras mulheres a ser porto de voo! Bem simples! seu volante pesava simplesmente oitenta quilos. “Logo que me separei do meu marido, o pai das minhas filhas, só existiam duas mulheres que eram porto de voos, eu e a dona Dali. Eu tinha uns 20 e poucos anos e era bem miudinha, mas meu volante pesava 80 quilos, sempre trabalhei com volantes pesados. Marília também foi uma das primeiras mulheres a fazer o globo da morte.

“Meu marido tinha um circo muito bonito, o circo Scalli. Ele contratou o Guido Ponci, que uns dizem que foi o inventor do globo da morte, ele veio da Itália. Na época só eu e a Ivonete Ayres fazíamos o globo da morte.” “Quem ia fazer era o meu marido, o meu cunhado e o senhor Guido. Aí escutei o meu marido falando que não  queria fazer e disse será que minha mulher não quer fazer? Não fala isso pra mim… se eu escutasse será que a Marília faz, eu fazia. Sempre gostei de desafio. Tudo o que eu fiz foi por desafio. Aí ensaiei e estreei na garupa do senhor Guido Ponce, e ele fazia vertical, horizontal, montanha russa… aí eu comecei a ensaiar com bicicleta. Mas como minha perna é curta precisaram fazer uma bicicleta especial pra mim, porque senão eu não alcançava na malha do globo. Aí depois o senhor Guido me perguntou se eu tinha coragem de fazer de motocicleta. E eu falei, tenho, mas é o mesmo caso, precisa adaptar uma moto pra mim porque minha perna é pequena. Aí compraram uma e adaptaram. Pra encerrar a história nós fizemos sete no globo da morte, um trapézio no meio, 3 bicicletas e 3 motocicletas. E depois o senhor Guido inventou um globo com outro globo dentro. Quem vai no mini globo? A Marília! Nós fizemos loucuras! Eu tenho muito orgulho, a gente tinha muito reconhecimento do público, jogavam joias no picadeiro pra mim, eu tenho um colar lindo de madrepérola com macacita, foi jogado no picadeiro pra mim.”

Foi a Marília que me contou toda a história do terreno e que me mostrou documentos incríveis que ela havia guardado com todo cuidado por todos esses anos. A história já era por si só mágica e quando vi os documentos, fiquei mais encantada ainda! Colosso, Pompom, Marcio, Cherozinho, Cida, Ramos, Dover… e o recibo “Recebi de BONECA a quantia de….” Era muito divertido ver os nomes dos palhaços na lista formal, num recibo formal. Eu imaginava o mestre de pista gritando “E com vocês, Boneca!!” e era divertido ver um recibo da Boneca. Foi depois desta conversa que pensei em escrever o projeto que resultou nesta pesquisa. Era de fato uma história que pedia para ser contada, eu só escutei. Marília tinha todos os documentos porque ajudava o senhor Sbano no controle da luz e da água.  (na página pesquisa tem  todos os documentos).

Marília viveu no Anhembi, antes de vir para o terreno no bairro do Limão. “quando o artista de circo encerra um contrato, ele fica desempregado, aí ele vai em qualquer circo e fala com o dono, pede para deixar o trailer lá. Ele não vai trabalhar, ele fica ali esperando outro contrato.” Porque de fato, os artistas não tem onde estacionar o trailer neste período… o contrato da Marília com o Circo de Roma tinha terminado e ela soube que a família Sbano estava parada no Anhembi. Ela conversou com o senhor Sbano e também estacionou por lá. “Lá era muito bom! Nós estavamos num circo. Quando tem dois ou mais trailers já é circo. O artista de circo, que nasceu no circo, não nasceu para ficar preso em algum lugar. Nós temos nossa liberdade.” Marília fala com saudades dessa liberdade, dessa vida no circo. “Quando a gente vê um animal, quando a gente vê um trailer, a gente fica eufórico, a gente sente isso nas veias. Isso é da gente mesmo!” Aí, com o projeto do estacionamento de trailers, Marília veio junto com todas as outras famílias que estavam no Anhembi para o terreno do bairro do Limão. “A nossa convivência era muito boa, chegamos a ter uns 300 trailers, a gente fazia festa de Natal, tinha futebol, tinha o meu bar…” O Bar da Marília foi citado por quase todos os entrevistados por ser um ponto de encontro e de festa. “Eu tinha um toldinho pequeno e fazia um bar ali, aí a dona Carola, dona do Circo Garcia, me fez uma surpresa e me deu uma lona de uns 20 metros, com lâmpadas e um monte de coisa linda. Meu bar ficou a coisa mais linda, cheio de plantas. Eu fazia pizza, salgados, frango assado. Tinham umas 20 mesas. Sempre fazíamos bingo, era uma festa. Na segunda, depois do café dos artistas, muita gente ia para o meu bar, por causa dos amigos. O Dover cantava com o Mulambo, todo mundo se divertia.” “A Boneca, que foi uma grande artista, esposa do Girabel, conseguiu montar um circo ali dentro para dar aulas e para os próprios artistas teremo o seu trabalho ali. Mas muita gente foi contra.” Sobre a invasão Marília conta que a Lígia, presidente do SATED tinha sugerido que colocassem um portão, que cercassem “mas nós circenses não tínhamos aquela malícia. Quem vai invadir sabendo que nós estamos aqui? Pessoal de circo não tem essa malícia, que vão entrar, que vão roubar…aí a gente dormia, acordava e era 5, 6 barracos. Eu nunca imaginei na minha vida que fosse assistir a construção de uma favela.” “Meu pior momento foi enfrentar o mundo aqui fora, porque o nosso mundo é muito diferente desse daqui. Nós, naquele círculo, tínhamos colegas, nosso mundo é ali. Os pensamentos são outros, como eu te falei, minha porta fica sempre aberta, aí me falam, e se entra ladrão? Mas eu não ponho isso na cabeça não.

A casa da Marília é toda enfeitada com muto brilho e bonecas. E me chamava muito a atenção que sempre que eu ia visita-la, a cada dia o sofá estava de um lado, o armário de outro… sempre tinha alguma coisa diferente. Até perguntei se isso tinha alguma coisa a ver com a questão das mudanças que o circo proporcionava, ela não viajava mais mas mudava os móveis de lugar… mas ela disse é mania, de geminiana. “Eu não gosto de ficar num lugar só e não suporto a rotina, meu dia a dia tem que mudar sempre.” Sobre as bonecas, Marília puxou essa outra mania da mãe. “Ela nunca teve uma boneca quando criança e depois que se casou, adorava ganhar bonecas. O trailer dela era cheio de bonecas. Isso eu peguei dela. Adoro bonecas e brilho. Isso vem de circo, minhas roupas sempre tem algum brilho.

Marília recebeu muitos convites para voltar a trabalhar no circo. “Porque palhaço, globista e mágico pode fazer com a idade que for que ninguém repara. Até hoje, com a idade que eu tô eu podia fazer globo da morte. Mas eu não quis voltar.”

Todas as vezes que visito especialmente este bloco do Cingapura, as portas da Marília e da Loren e do Puchy estão abertas. Quando o Ivan estava vivo, a porta dele também ficava. Eles transitam entre as casas, assistem tv ali, um faz um biscoitinho e  leva no apartamento do outro. Uma fala comum entre todos é a dificuldade de ficar com as portas fechadas, com as janelas fechadas, isolados no apartamento. Dover dizia que não aguentaria morar num apartamento, que são como jaulas. E se pensarmos em como era a vida deles nos trailers, podemos entender essa dificuldade.”O que a gente estranha do circo é isso, a liberdade da gente, eu fico esperando a Loren chegar, aí já abro a minha porta e sento lá, eu saio daqui e sento ali.” “Eu conheço o Brasil de ponta a ponta, isso é vivência, é conhecimento,conhecer outras vidas, outros lugares.” Aí Marília liga a tv, escuta seus cds e imagina “eu viajo todos os dias, eu vou pra tudo quanto é canto, na minha imaginação.” “Sempre gostei muito de cantar, sinto falta de gente, sinto falta de rir , as vezes ia para o Carrefour a pé, cantando muito, o vento no rosto…”

E pra terminar a lindíssima conversa, Marília diz o seguinte: “Os artistas de circo, os antigos, nunca ficaram bem de situação financeira porque nunca valorizavam o dinheiro, nunca deram importância. Nós queríamos roupas bonitas, muitas plumas para o picadeiro. O nosso luxo era esse, a gente valorizava o picadeiro. Hoje não é assim.”

E eu a cada dia me sinto mais honrada de poder ouvir histórias de pessoas que foram criadas no circo. E quando penso no verbo criar, fui criada em São Paulo, sou atriz, sou produtora, sou filha, sou mulher….são muitos personagens… e eles foram criados no Circo e são circenses… é tudo junto… não tem personagem! Não tem personagem em nenhum momento! No teatro os atores criam a ilusão, o humano está lá mas está poetizado… o ator volta para casa, vai ao supermercado… no circo o humano está lá de fato! Ele não volta para casa…não é apenas um trabalho, a arte transborda para a vida, é a vida deles.

Priscila Jácomo

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por circoparaki

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