Lígia de Paula – presidente do Sated

Nossa conversa com a Lígia foi no SATED – Sindicato de Artistas e Técnicos em Espetáculos.

Lígia é presidente do SATED e foi na gestão dela que o projeto do Estacionamento de Trailers para Circenses teve início. “Era uma reclamação da classe circense a perda de espaço para o circo na cidade de São Paulo.” O projeto do estacionamento havia sido idealizado pela Dirce Militello mas foi em 1989, que o SATED levou o projeto para a então prefeita da época, Luiza Erundina. “O projeto visava primeiramente moradia para que os circenses tivessem onde colocar os trailers, também havia a ideia de um museu e de uma escola de circo.” A prefeitura, através da secretaria da habitação selecionou o terreno por volta de 1990 e o sindicato aprovou. “A prefeita deu o espaço como comodato, não poderíamos construir uma casa, por exemplo, tudo tinha que permanecer com atividades como é o circo, da maneira que é feito o circo, levando em consideração o modus vivendi do artista circense.” “O ponto era excelente, tinha muita visibilidade, tínhamos nos comprometido que não tivesse nenhuma publicidade ali, e como o sindicato que tinha assinado o comodato, nós nos comprometíamos a manter tudo como havia sido combinado. Fazíamos assembleias e tiramos um regulamento.” Haviam vários projetos pensados para o terreno, inclusive o de uma horta comunitária.”Fazíamos assembleias, havia votação, as pessoas falavam, Cherozinho era o nosso diretor na época. Não havia a ideia de paternalizar, de coordenar, o sentido era outro, era dar autonomia para aquele agrupamento.”

Lígia conta que o espaço era cercado e tinha uma espécie de um portão, até que em determinado momento, outros segmentos começaram a invadir. “O circense é muito humilde, muito amigo, eles foram enganados. A ocupação aconteceu de uma forma cruel para espantar os artistas. Eles foram retirados daquele espaço. Nós perdemos o espaço e o comodato perdeu o valor. Absurdo o desleixo e destrato com pessoas essenciais.” “Chegou um momento muito triste que começaram a jogar lixo hospitalar, chegavam caminhões e caminhões no espaço, eles chegavam com a placa escondida, tapada. Eu me pus à frente de um deles, quando ele chegou a distância que você está, eu vi que ele ia passar por cima de mim, aí saí. Aí fizemos uma assembleia e eu expus, realmente, daqui não tem mais saída.” Lígia considera que o projeto foi uma vitória para a classe circense. “São Paulo até hoje não tem um espaço para circo. Não tem mais espaço. O circo foi de grande importância para a sociedade brasileira. No passado ele foi o principal veículo de cultura e de conhecimento. A Atividade foi perdendo de acordo com as mudanças que foram acontecendo na cidade.”

Lígia conta que o Sindicato tem avançado bastante na questão da profissionalização do artista circense. “Pela lei 6533 de 1978, a profissão foi regulamentada. É bastante específico, eles estão lá juntos com o dono do circo e muitas vezes eles sequer tinham documentos, CIC, RG. Aí começamos a fazer convites para os donos de circo para regularizar quem não tivesse documento e também para obter o registro profissional.” Lígia conta que o sindicato aposenta muitos artistas e sua mais recente luta é por um espaço para um retiro de artistas. Foi muito bonito ouvi-la contar e ver de fato que ela realmente “veio a negócios”. Que bom que temos pessoas como ela tratando deste tipo de negócio… “o ser humano tem uma dimensão de solidariedade, se eu tenho um saco de arroz eu não vou comer tudo, eu me alimento mas também entrego a marmitinha ao próximo. Eu aprendi isso com a minha mãe. Minha mãe teve 11 filhos, sempre era muita gente, sempre um sendo solidário com o outro, então eu não vejo razão para não perpetuar o que vivi e como tenho que me conduzir no mundo.” Uma coincidência bonita foi esta história do arroz, de dar a marmitinha para o outro, ser muito parecida com uma história que o Paulinho, diretor executivo do SATED, contou sobre a Dirce Militello. E a entrevista termina com uma fala emocionante. “Eu tenho muita esperança no mundo. Porque o mundo vai ser diferente, viu? Pela própria necessidade, a modernidade da vida vai reverter essa história. Quer queira quer não o homem vai ter que aprender a conviver com o outro, vai ter que aprender a conviver com a natureza, vai ter que aprender a conviver com os animais. Não tem mais sentido, ou a gente aprende ou a gente não vai mais viver, então vai ser uma necessidade de você garantir a sua vida. Eu sou humanista e corintiana. Eu vim a negócios, tenho um espírito coletivo e acho que a gente tem que preservar o que faz bem pra gente.”

Priscila Jácomo

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por circoparaki

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