Bel Toledo – Presidente da Cooperativa Paulista de Circo

Bel Toledo é jornalista e foi casada com o circense José Wilson, fundador do Circo Escola Picadeiro. Bel administrava a escola. “Trabalhei na Manchete mas aí entrei no circo, quer dizer, o circo entrou em mim.”

Bel conta que por volta de 1988, o Circo Escola Picadeiro apresentou para a Secretaria do Menor um projeto para fazer uma escola de circo social. Segundo ela, a Secretaria do Menor precisava de um projeto sedutor que interessasse às crianças e a secretária Alda Marco Antônio pensou que no circo. O Circo Escola Picadeiro já existia ali na ponte da Cidade Jardim e aí eles começaram a montar circos escolas na periferia de São Paulo. Já era costume de muitos circenses estacionar o trailer no Circo Escola e com o início do projeto o número de trailers aumentou muito “Começamos a contratar muitos professores para dar aulas” e isso lotou o terreno. “Na época a gente contratou toda a família Sbano que tinha uma estrutura enorme, uma carreta enorme. E no Anhembi tinha um terreno que era para circo. O terreno era chamado Praça do Circo. Era uma época de muita invasão de sem-terra, tinham invadido o Ibirapuera… aí eu falei, sr Sbano, vamos invadir o terreno? Porque aí a gente negocia, chama a imprensa e movimenta a classe.” A família Sbano era muito grande, umas 30 pessoas. “Aí, nos primeiros dias foi muita confusão, mas eles ligaram água e luz e disseram que era provisório… mas ficamos. Aí começaram a chegar outras pessoas, o terreno tinha uma movimentação de 60, 80 pessoas… porque é uma situação difícil, que não existe solução ainda, se você sai do Circo Fiesta, se você está sem contrato, você fica aonde? Tem que pedir por favor para algum circo e os donos não querem, porque é despesa para eles – isso era constante no picadeiro, as pessoas pediam para parar o trailer ali, a gente sempre tinha gente ali.”

Depois dessa “invasão” no Anhembi, na época da gestão da prefeita Luiza Erundina, houve a intenção de construir o Sambódromo no terreno, o SATED entrou na história e ajudou a conseguir o outro terreno para os circenses. “Agora numa situação mais precária, porque como o Anhembi já era terreno para circo, tinham banheiros, tinha luz e era cercado e quando eles mudaram, era só o terreno. Foi tudo meio precário.”

“Quando eles mudaram o senhor Sbano era o capitão e coordenava, então era só circense mesmo. Depois, como não era cercado, os próprios circenses começaram a vender o terreno e virou uma esculhambação. A história que corria era que começaram a cobrar e deixar outras pessoas entrarem aí o senhor Sbano começou a perder o poder. Aí começou a violência e a situação ficou caótica.” ” Aí, como não era mais só de circo muitos foram embora porque o terreno ficou descaracterizado, virou para desfavorecidos.”

Toda essa história que a Bel conta é bastante interessante porque diz muito da própria história que o circo viveu, toda a transição do “circo família” para as escolas de circo. “Os donos de circo não gostavam do projeto dos circos escolas porque os professores tinham salários, tinham melhores condições de trabalho… a gente pegava pessoas que não estavam mais no picadeiro mas tinham o saber. Aí houve um resgate de cidadania muito grande. Foi uma experiência interessante porque este saber era um tesouro para ser passado para a família… e tinha um certo ressentimento que os instrutores passassem as informações para quem não era de circo.”

“Neste projeto de escolas de circo, as coordenações mudaram, Ongs assumiram e aí tudo mudou muito… não eram só professores de circo, eram também professores de educação física. Isso também desarticulou o projeto.”

A nossa pesquisa constatou que os circenses em princípio iriam só estacionar o trailer enquanto aguardavam novos contratos… mas esse estacionar acabou se tornando “parar mesmo” ou “trabalhar parado” como muitos deles falam. Isso foi uma mudança importantíssima. Ivan, o malabarista cubano foi professor, Amercy Marrocos, Puchy e Loren, Pepin e Florcita… praticamente todos eles foram professores deste projeto que teve início em 1988 (alguns chamam de “Projeto Enturmando”). É lindo ouvi-los falar sobre a possibilidade de ensinar o que aprenderam dos pais. Sobre o orgulho de ensinar a arte. E é bonito aprender enquanto eles contam… Puchy diz que não é só fazer o aparelho, mas saber montar o aparelho… Amercy diz que não é apenas fazer o salto mas saber como se apresentar, cumprimentar o público… Pepin diz que o palhaço além de fazer rir precisa entender de pessoas, e saber com quem brinca, quando pode sentar no colo de alguém e quando não… realmente são ensinamentos brilhantes. E na semana passada encontrei com Puchy e ele me disse que este projeto “foi encerrado” no local onde ele trabalhava… e fiquei muito triste por imaginar o tamanho desta perda…

Priscila Jácomo

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por circoparaki

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