A Família Sbano

Poesia Cigana

“Um dia, lá do Oriente
De onde tudo começa
Partiu meu povo contente
Caminhando sem ter pressa.
Quando partiu? Ninguém sabe
Porque partiu? Ninguém diz.
Partiu quando deu vontade
Porque partiu? Porque quis.

Então aqui aparecemos
Sem nunca saber quem fomos
Nosso passado esquecemos
Só interessa o que somos

O ontem sempre é passado
Amanhã sempre o futuro
Vivemos despreocupados
O hoje que é mais seguro.

Dizer que Pátria não temos
É uma grande insensatez
A nossa Pátria sabemos
É maior que a de vocês.
Sua Pátria é um país somente
A nossa é toda essa terra
Que Deus nos deu de presente
Por nunca fazermos guerra

Somos um povo que canta
Feliz por saber viver
O pôr-do-sol nos encanta
Amamos o amanhecer

E assim sempre de partida
Hora no campo ou cidade
Amamos a nossa vida
Somos Reis da Liberdade!”

Zurka Sbano

Foto 1 -Zurka Sbano Foto 2- alguns integrantes da família Sbano Foto 3 – Zurka Sbano e alguns de seus trabalhos

 Zurka Sbano, o capitão, como era conhecido,  foi citado em praticamente todas as entrevistas. Era ele quem organizava e coordenava tudo o que acontecia no terreno dos “Sem Terra”; junto com os filhos, Marcelo Sbano e Eduardo Sbano, foram os primeiros a se instalar no terreno do Anhembi. “Os Índios Comanches” como eram conhecidos faziam números de laço e chicote em muitos Circos do Brasil. O capitão Zurka Sbano era também presidente do Centro de Tradição Cigana de São Paulo. Tradicional Família Cigana, não viviam em trailers, viviam em barracas. A família era numerosa e tinha acabado de ser contratada para o projeto dos Circos-Escolas que a Bel Toledo e o José Wilson estavam implantando. Os primeiros a se instalarem no terreno do Anhembi , davam aula de circo durante a semana e aos sábados e domingos faziam cachê em circos. Viveram também no terreno do bairro do Limão mas após a invasão, decidiram voltar para o circo.

  O capitão faleceu há alguns anos. Entrevistamos os dois filhos, Marcelo Sbano e Eduardo Sbano e suas esposas,????? e Saadia Marrocos que estavam com o circo no litoral de São Paulo. Eduardo contou que o pai, também ator, queria implantar um Circo-teatro no terreno e criar ali um Centro de Tradições Ciganas.

O Capitão Zurka Sbano

Marcelo Sbano, Eduardo Sbano e Dover Tangará no dia da entrevista

Conhecidos como Índios Comanches, e pelos números de laço e chicote,  Eduardo Sbano e Saadia Marrocos (irmã da Amercy Marrocos) trabalharam em circos grandes, fizeram shows, trabalharam com o Beto Carreiro e fizeram filmes. “Eles achavam que a gente era índio de verdade! O rapaz da rede globo veio falar em inglês comigo! Aí eu disse, pára com isso moço, eu moro ali na Freguesia do Ó. A gente tinha que avisar que só no nosso trabalho é que éramos índios norte americanos. Somos brasileiros!” Eduardo conta que foi ele quem ensinou o Beto Carreiro a estalar o chicote. Conta que viajou pela primeira vez de avião para o lançamento do nome do Beto Carreiro junto com os trapalhões. “Ele ainda não tinha aprendido a estalar o chicote, aí eu fui o dublê, como o lugar do show era muito alto, ninguém percebe,eu coloquei um terno branco!” ” O sonho do Beto Carreiro era ser famoso, aí eu falei, quer ficar famoso? Compra um circo! e ele comprou. Trabalhamos juntos por muito tempo. Fazíamos um show lindo! Fomos para o Rio, fizemos o programa da Xuxa, do Faustão, do Gugu, da Hebe… o Eduardo também fez o filme  “Xuxa e os trapalhões no Reino da Fantasia”.  “Nunca pensei em dinheiro, eu vivo hoje, o amanhã é amanhã. Peguntam se a gente quer apartamento, se a gente quer carro.. o que a gente quer é viver.

Os Índios Comanches

http://youtu.be/lilp1s_owjo..”

Eles nos mostraram documentos muito interessantes da época em que existia o terreno onde viviam os circenses como um Jornal do Brasil, de 5 de maio de 1991 que tinha como título de uma reportagem “Um Seminário Cigano nas margens do Rio Tietê.” Pela reportagem, descobrimos que no terreno também viveram padres.

Segundo a reportagem: “Três seminaristas gaúchos, de 22 a 24 anos, fizeram opção pelos marginalizados, trocaram o conforto de um seminário em Porto Alegre pela dureza de um acampamento de barracas de lona em São Paulo, à margem do poluído rio Tietê, onde estudam, rezam e trabalham sob a direção de Renato Rosso, um padre italiano. Murialdo Gasparetto, Jorge Pierozan e Reni Zanotto chegaram à capital paulista (a pouco tempo…) Sujos, às vezes cheirando mal, eles deixam o acampamento bem cedo para , de ônibus ou a pé, chegarem Às 8 horas no Instituto Teológico Pio XIX, no alto da Lapa, a sete quilômetros de distância.  A Comunidade de Nômades Charles de Foucauld, nome que deram ao seminário de lona, começou a funcionar este ano e é a primeira iniciativa desse tipo no Brasil” (…)

“Ali estão acampadas 30 famílias, com 102 adultos e 46 crianças. Moram em barracas de lona e trailers, sob as ordens do capitão Zurka Sbano, de 69 anos, neto de ciganos do sul da Itália, que abandonou o picadeiro e viagens para fixar sua tenda num terreno baldio. É sob o abrigo da barraca do capitão Zurka Sbano que o padre Renato celebra a missa comunitária, a cada quinzena, sempre às terças-feiras.”

“O visual cigano afasta as pessoas, muitas não acreditam que os rapazes vão mesmo ser padres. A reação começou pela família. “Os parentes escrevem para a gente desistir dessa vida, conta Murialdo falando pelos companheiros. Nas ruas de São Paulo, eles são obrigados a mostrar os documentos com frequência, sempre confundidos com marginais. “No metrô, os passageiros fogem do vagão, quando a gente embarca, porque a roupa suja e o mau-cheiro os incomodam, revela.(…) O modo de vida dos ciganos exige que a gente viva assim.”

“TRABALHO NO CIRCO, TRADIÇÃO QUE VEM DE MUITOS SÉCULOS

Uma das diversões do capitão Zurka Sbano no acampamento é lembrar os bons tempos de sua arte, quase 60 anos de carreira e aplausos em mais de 90 peças. Ele ainda canta trechos da opereta Cabocla bonita, de Viriato Correa, seu sucesso em cena (…) Ao lado de Juracy, sua vizinha e sogra de um de seus cinco filhos, o capitão conta histórias de ciganos e artistas para manter viva uma tradição que as jovens gerações vem abandonando. “Os filhos dos artistas de circo agora pensam mais em estudar, não querem saber de nossa profissão” lamenta Juracy que aos 73 anos resolveu plantar um jardim à porta de seu trailer, sem esperança de retornar suas viagens sem rumo. ” (…)

“Nós agora somos professores de meninos de rua nos circos escolas, informa Eduardo Sbano, filho do capitão, referindo-se a um projeto estadual da Secretaria do Menor”

Eduardo e Marcelo nos mostram também essa outra reportagem, da Revista ISTO É de 21 de setembro de 1994.

Para além do mérito artístico da família Sbano e do capitão Zurka Sbano que foi palhaço, acrobata, ator, diretor e cenógrafo, o que mais me chamou a atenção nestas entrevistas foi relacionar as duas reportagens com a Poesia Cigana escrita pelo senhor Zurka Sbano. Essa liberdade afirmada e anunciada, “partiu porque quis, partiu porque deu vontade”, este grito pelo presente, pelo agora, pelo hoje. Uma liberdade que os ditos “Sem Terra” têm ao não ter terra nenhuma. Já que não tendo terra nenhuma, têm toda a terra! Não pertencendo a lugar nenhum pertencem à todos, e nos pertencem também! Os nômades, desde o século passado são apontados como povos vagabundos, que deixavam sinais de destruição e abandono por onde passavam. Alvos de preconceito isso não mudou muito desde aquela época. A forma como o jornalista descreve os seminaristas que viveram no terreno “sujos, às vezes cheirando mal” como se isso fizesse parte do povo cigano “o modo de vida do povo cigano exige que a gente viva assim”. Por mais que ele relate o preconceito, a própria forma como ele escreve denuncia o preconceito. E na reportagem da ISTO É, de 1994, que conta que “skinheads marcharam pelas ruas gritando “ciganos para as câmaras de gás.”

O que é que assusta tanto no povo nômade? É uma história de séculos vivendo à margem. A própria história do terreno protagonista deste blog que começou num espaço, em seguida foi transferido para outro mas já se sabendo que deveria ser transferido novamente…e hoje ele não existe mais. E quando pensamos também que o primeiro projeto de circo-escola criado em São Paulo foi para “crianças de rua” pela Secretaria do Menor… é uma longa história de margens e margens e margens… Talvez esse medo, esse preconceito esconda na verdade um medo do que nos pertence… do que nos causa vertigem exatamente porque também é nosso… O termo “fugir com o circo”… quem nunca pensou em fugir com o circo? Um circo que passa e detona desejos, oferece novos caminhos, riscos e possibilidades. Um circo que responde a essa necessidade de desequilíbrio, de risco e de audácia que é tão humana, que é tão real. Quando será possível afirmarmos essa nossa necessidade de risco, audácia, desequilíbrio e loucura ? Quando, ao invés de rechaçarmos o que é tão nosso poderemos afirmarmos nossa loucura e vivermos mais alegres?

Priscila Jácomo

Anúncios
por circoparaki

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s