Dover Tangará

A história de Dover Tangará é um capítulo muito especial. Um capítulo que já rendeu um livro, que já rendeu um documentário e que ainda renderá muitas histórias. Dover Tangará era irmão de Dirce Tangará Militello, a idealizadora do projeto do estacionamente para trailers de circenses que este blog está contando a história.  Dirce tinha idealizado o projeto e faleceu de alegria quando soube que seu sonho seria realizado. Infelizmente o “Estacionamento de Trailers para Artistas Circenses” durou pouco tempo, logo o terreno foi invadido e virou uma favela. Na época em que cadastraram os trailers para que os moradores conseguissem um apartamento no atual Cingapura, Dover, irmão de Dirce, estava internado num hospital psiquiátrico. Ele foi roubado; outra pessoa cadastrou seu trailer e por isso ele não teve direito a um apartamento. Sim, o irmão da idealizadora do projeto quase foi expulso do terreno. Quando o conheci, em abril de 2011, ele morava num fusca, dentro do Cingapura. Na época, ele estava sendo expulso porque o condomînio estava se tornando um CDHU e nenhum carro sem documentação poderia ficar lá dentro. Tempos atrás haviam colocado fogo em suas coisas neste mesmo fusca e por pouco não aconteceu coisa pior, ele acordou e fugiu. Depois de muita luta, de levarmos fotos, livros e de contarmos toda as histórias daquele homem para as Assistentes Sociais da Prefeitura conseguímos que ele ficasse por ali… meio sem querer… como se ninguém percebesse… (Tudo isso eu conto com mais detalhes na página “antes daki” deste blog).

Este ano, quando reencontramos Dover Tangará ele estava vivendo num trailer pequeno, não dentro do Cingapura, mas exatamente no local onde era o terreno destinado aos circenses, bem ali na alça da ponte Júlio de Mesquita. Dover acompanhou toda a pesquisa, participou de todas as entrevistas e foi nosso protagonista. O dia da sua entrevista foi pra mim muito especial. Neste dia, tive dimensão do que aquilo tudo significava. Quando chegamos perto do trailer a sensação era “quero ir embora”, “não quero entrar em contato com isso”, “está pesado demais”. Aquela sensação que às vezes a gente tem, na rua, no farol, embaixo de um viaduto… e que faz a gente apressar o passo, subir a janela do carro, travar a porta… como se pudesse se proteger disso, como se pudesse fugir, como se pudesse excluir aquilo do nosso mundo. Como se o nosso mundo não fosse O MUNDO, não fosse UM SÓ. Então eu estava ali, não tinha jeito de travar a porta e o meu amigo vivia ali. Dover estava junto com uma amiga, a Tati.

No ano passado, enquanto ainda trabalhava como fono num posto de saúde da prefeitura, conheci uma senhora que tinha vivido o massacre no presídio do Carandiru, ela era mãe de um dos presos e assistiu àquilo. Essa mulher tomava remédio psiquiátrico e lembro que um dia, conversando com ela, chegamos a conclusão de que qualquer pessoa que tivesse passado por essa situação não sairia ilesa. Todos, até hoje, temos em nós o efeito daquele massacre. Sabe quando atiramos uma pedrinha no lago e a água reverbera? Se tiver um bichinho perto de onde a pedrinha caiu ele vai tremer mais, os bichos que estiverem mais longe vão tremer menos…mas todo o lago vai perceber que caiu a pedrinha. É como se essa mulher estivesse mais perto da pedrinha, tudo reverberou mais forte nela, eu estava na beirada do lago, também senti o efeito mas em menor grau…

A Tati, amiga do Dover, “está bem perto da pedrinha”. A Tati é efeito de um tantão de coisas que acontecem no planeta e que reverberam nela de um jeito mais forte… ela vive na favela, vive a violência, vive as drogas. Outros homens que estavam ali também vivem bem perto da pedrinha e sofrem o efeito disso tudo.

E foi muito forte quando conversei com estas pessoas. A Tati tem 26 anos e seu sonho é conhecer um cinema. Sonho que foi realizado na semana seguinte, no dia do seu aniversário, quando Dover levou a amiga para assistir uma comédia. Tati contou que viveu toda a invasão. “Nasci na favela do Minas Gás, quando cheguei aqui só tinha trailer, conheço o Dover desde criança, somos bem amigos”. Lena, outra amiga do Dover contou que vive ali há muito tempo “quando cheguei aqui não tinha a ponte, não tinha o Carrefour, só tinha a favela do circo e depois fizeram o alojamento.”

Foi engraçado porque do mesmo jeito eu senti uma “vontade de travar a porta”, percebi que elas também sentiram uma vontade de sair correndo. Foi uma aproximação estranha. Até que, vários filhotes de cachorro apareceram e amoleceram a situação. Todo mundo foi brincar com os cachorrinhos e aí todo mundo “ficou igual”. Neste momento, conhecemos o dono do ferro velho que ficava próximo ao trailer do Dover e junto com ele dois catadores. Um deles, o Paulo, ficou conversando muito comigo, me contou que ele descobriu o que era gratidão. Ele vivia embaixo de um viaduto até que este outro catador foi conversar com ele alertando que ali queimavam muitos mendigos. Ele ofereceu a carroça para rodiziarem o serviço e chamou o Paulo para dormir perto do ferro velho. “Ele salvou a minha vida, hoje a gente é bem amigo.” E o Dover vivia ali, bem perto de onde a pedrinha cai no lago… e foi ali que ele foi morto. Também efeito disso tudo. Efeito da violência, efeito da droga, efeito da desigualdade…

No dia da entrevista Dover nos levou no bar do Didi. Ele fez questão de que a entrevista fosse feita lá porque dizia que o Didi também era artista, tinha gravado alguns cds e eles cantavam juntos de vez em quando.

“Faz muitos anos que vivo aqui sozinho. Passei um tempo neste trailer, vivi na rua e aprendi que tudo vale nada. O que vale é isso aqui, este entretenimento que a gente tem com as pessoas. Só. O resto é o resto, a gente vai deixar tudo aí mesmo, vai ficar tudo aí. Eu já convivi com pessoas de rua que são mais problemáticas, já convivi com muita gente, não me assusto com pessoas, alguns são engraçados, acham que mandam. Não é fácil, mas eu convivo bem com eles. Outro dia conheci um rapaz jovem que dormia lá fora. Me penalizei e chamei ele para dormir no trailer. A Tati também já morou lá no trailer. Porque na verdade eu não moro no trailer, eu estou sempre andando. Eu moro na rádio Atual, eu moro no Memorial da América Latina, eu não moro no trailer.”

” Eu passo quase o dia inteiro no Memorial, tenho amigos lá, quando não vou eles sentem a minha falta, eles gostam de mim. Outro dia o dono do bar perguntou “ué, você sumiu!” e eu falei, “não, é que tem que dar um tempo. Não dá pra ficar em cima, abusando das pessoas, do tratamento que as pessoas nos dão.”

“Vou no Centro de Memória do Circo todo dia, eu saí do circo mas continuo junto com gente de circo, de teatro, de cinema… Agora tenho ido muito no Teatro Oficina. Eu sempre quis trazer o circo para dentro do teatro e por uma questão do destino o teatro foi parar dentro do circo! Sempre gostei de entrelaçar os artistas, o artista de teatro, o artista de circo, todos num só pensamento.”

Sou muito grata por ter conhecido Dover Tangará. Dover me ensinou muito. Ele incluía tudo à vida, sem restrição. Ele não via diferença. Ou melhor, ele só via diferença e se relacionava com tudo, principalmente com “o que está à margem”, com o que é “marginal”. Certa vez, conversando com ele, comentei que não conseguia ouvir o que ele dizia por causa do barulho da marginal e ele me surpreendeu fazendo uma releitura do que eu estava dizendo… “Marginal, vc sabe o que é marginal? é aquilo que fica na beirada e não consegue entrar”. Ele disse que se sentia marginal mas que às vezes conversando comigo parecia que ainda fazia parte do mundo. Sim meu amigo! Você fazia parte do mundo, e que bom que eu pude te ouvir. E você ainda faz parte do mundo. Tudo o que você me causou está em mim, então de alguma forma, você está aqui. No dia do seu enterro, tinham amigos dos mais variados “modelos”, ricos, pobres, famosos, autoridades, artistas, médicos… era uma diferença só.

Falo que o Dover foi a minha Estamira. Estamira foi uma mulher que viveu num lixão no Rio de Janeiro e foi feito um documentário sobre a vida dela. Estamira é destes seres que estão além. Sempre me questiono muito sobre o que é a “loucura”… acho que os “loucos” são aqueles que não foram anestesiados… e sentem demais, percebem demais… e  por isso não dão conta de viver neste mundo…como nós. Estamira dizia que era a “beira do mundo” e Dover dizia que era a margem. Os dois nos colocam questões sobre pertencimento. Sobre o julgar aquilo que faz parte e aquilo que não faz. Os dois viviam em lugares inóspitos, junto dos outros marginalizados, que também eram tidos como “os que não fazem parte”… e que violentamente nos mostram o quanto fazem…

E que por mais que a gente fuja, fique longe, coloque insulfilm no carro, suba o vidro, trave a porta, isto grita e se faz presente. O triste é que ele, como representante dessa margem, foi morto também como efeito disso.

Dover Tangará, o maior trapezista que o Brasil já conheceu, foi violentamente espancado e morreu tetraplégico em um hospital no dia 08 de agosto de 2012.

Priscila Jácomo

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por circoparaki

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