Verônica Tamaoki – Centro de Memória do Circo

O primeiro encontro que tive com Dover Tangará oficialmente foi no Centro de Memória do Circo em uma reunião organizada pela Verônica Tamaoki. Agora, depois de toda a pesquisa, fechar as entrevistas ali foi bem significativo.

Verônica nos deu um panorama histórico do circo na cidade de São Paulo.

“Em 1925 sob a palavra de ordem “unidos seremos fortes”, é fundada a primeira Associação da Classe Artística. Estamos ainda na época do sindicalismo livre, antes do sindicalismo do governo, é a Federação Circense. Foi um período de muita luta, onde os circenses buscavam um local para estar, um local para se recolher. Acho que eu nunca senti tanta falta de uma casa dos artistas, de um local dos artistas… o Dover se foi como se foi por não termos um local, acabamos de perder também o Barry e estamos com problemas com o Sr Maranhão que está no hospital, se tivéssemos essa casa dos artistas como no Rio tem acho que muita coisa seria poupada. E é essa busca que vc vai reencontrar em 1990, no caminho da Dirce Militello, vcs vão nos trazer mais informações sobre isso, sobre o que aconteceu. Essa busca por um local, um local p/ os circenses. Aí eu retomo 1925, no dia 25 de março de 1925, reunidos e se articulando aqui no largo do Paissandu, os circenses montam a Federação Circense com um espírito muito grande de luta que vai até 1938.

Em 1934 o sindicalismo do governo toma o lugar do sindicalismo livre, a Federação Circense recua e surge o Sindicato dos Artistas.

Em 1928 com a renda obtida com mensalidades, festivais, bilheterias dos circos que estão associados a federação, joias de novos associados se compra uma chácara circense, aqui no Cambuci. No Boletim da Federação Circense tem até fotos disso. É quase um paraíso, água, poços de água, plantações de pera, de laranja, casas.. o que foi feito disso? Isso acaba sendo passado p/ Cruz Azul em 1938 .

Depois em São Paulo, na décade de 30 temos a Casa do Ator. Um local grande com vários quartos, com igreja e perdemos…Tivemos também o terreno do Anhembi, que antes de ser o Sambódromo seria um local para montagem de circos, eu estive lá porque eu fiz a Academia Piollin de Artes Circenses que funcionou ali ao lado do Vostok, era um terreno grande que comportava 3 circos, tinha uma certa estrutura inclusive p/ cozinha, banheiro, tinha já a ideia de estacionamento… Perdemos… eu acho que foi aí, com a perda desse terreno que foi substituído com a promessa inclusive que o Sambódromo aconteceria em fevereiro e durante o ano os circos poderiam continuar a serem montados ali. E depois isso se transfere p/ lá. Existe tb outro terreno que depois é transferido p/ aeronáutica, ali tb na região norte. E que depois isso se perde e vira os prédios de moradia dos militares que tem ali.

Realmente essa história em relação a terra, porque é o terreno dos “sem terra”, a terra dos circenses é uma história de perdas, de muitas perdas. Perdemos duas chácaras,  a chácara da Federação Circense e depois a Casa do Ator que era uma chácara. Perdemos o terreno aqui no Anhembi, perdemos antes um terreno, eu preciso até rever uma entrevista que eu fiz com o Sr Novaes e ele relembra todos estes terrenos perdidos do circo e que a gente chega no terreno do Cingapura né, que perdemos tb.

Porque vc acha que isso acontece?

A própria organização…de uma classe nômade, de uma atividade nômade.. de uma… aí a gente tem que ir mais fundo até… a Ermínia Silva sempre toca nisso, a arte de agradar o forasteiro que sempre tem que driblar a cidade, o padre, o delegado… e sempre está buscando ser aceito para poder se instalar, para poder armar sua lona. È dif´cil… é quase um estudo da psicologia do circense né (somos estrangeiros o tempo todo…não tem isso de posse… não teve embate..)

Questão da dificuldade em tomar posse daquele terreno? Criar galinha? Plantar? A cabeça do circense é muito diferente!

Aprender a se relacionar com a violência…

Eu lembro do Marcelo que era do Fratelli na época e hoje é do fractons e ele dizia, eles estão lá, nos sem terra, eu nunca vi um termo mais adequado p/ eles, sem terra, não temos terra e é mesmo, na cidade de SP, a coisa do terreno vago. Toda acidade tem que ter um lote vago onde se monta um circo, os lotes vagos em SP estão… o circo da construçõao civil foi muito rápido inclusive com grandes trapezistas na montagem dos edifícios de SP mas essa imagem do circo da construção civil ocupou todos os terrenos e os circenses foram muitas vezes perdendo por incompetência nossa, como a perda da casa do ator, da chácara da federaç~çao circense

Diante do interesse das grandes imobiliárias o circo não é nada

Agora, o secretario calil tem um projeto de montar uma lona, para as cias que passarem p/ ter uma ocupação das cias de circo. Primeiro foi pensado ali na Francisco Matarazzo e aí a associação a diretora da associação foi até bastante desagradável com a classe circense porque o circo ia atrair vagabbundos e marginais. Calil ficou… não sei se dá tempo… de levar esse projeto p/ um terreno em Santana. Até hoje, mesmo com o interesse dos órgãos públicos sente dificuldade dentro da própria população, porque? Porque é o nômade, né? É o cigano, é o que te atrai. Entender isso é entender a psicologia não só do circense mas do próprio brasileiro, Sr Rogê fala com muita propriedade nos chama a atenção quando ele conta a histórias de cidades que se voltam contra o circo, aí ele fala, mas porque? Tanta simpatia, tanta educação p/ depois fazer essa grosseria de um dia p/ outro.

Quando nos inauguramos o centro de memória do circo, nos fizemos um debate de manhã chamado, circo patrimônio cultural e afetivo do Brasil, e realmente é o circo é um patrimônio afetivo, vc descobre isso não precisa ser conhecedor da história do circo, vc sabendo um pouco de musica popular brasileira vc vai ver o quanto o circo é cantado, na literatura, na pintura, as artes são prova de que o circo é um patrimônio cultural e afetivo do Brasil. E na parte da tarde nos fizemos um debate tratando da questão do circo e os animais. Porque vc sabe ne, que existe uma campanha contra animais no circo que é feito de uma maneira preconceituosa ao extremo,porque é circo. Não se questiona a presença de animais no cinema, na propaganda, na televisão mas no circo não pode… é uma coisa bastante preconceituosa. Ao se colocar diante destas duas questões, patrimônio cultural e afetivo e do outro lado é a peseguição, são duas faces de uma moeda só, ao mesmo tempo que tem uma grande admiração, um grande carinho, é quase o que eu digo, é quase entender a psicologia nem do brasilerio do homem! O que te fascina, o que te dá vontade de abandonar isso aqui e fugir com o circo, aliás é uma cois a que tá na nossa própria linguagem, eu quero fugir com o circo, eu quero fugir ddessa vida daqui e ao mesmo tempo isso te..ao mesmo que isso te atrai isso te dá medo. Entender isso é quase entender a psicologia do ser humano, o circo tem isso, é o que está sempre seguindo…

E o dover reprensentava isso o tempo todo, ele era muito querido… o maior trapezista do Brasil…ele encarnou o próprio símbolo do teatro mas de uma outra forma… a mascara do riso e a mascara do choro, que isso está muito forte na figura do palhaço. Oq eu tem de musica popular, em óperas tb que fala do palhaço que ri com vontade de chorar. O DOver encarnou isso tb. O que voa altíssimo. O Próprio pelicano que no céu voa tão alto mas na terra as asas atrapalham o seu andar O dover encarnou essa contradição que está dentro da gente, por isso virou uma figura tão fascinante, não é porque tá fora, é porque tá dentro e ele encarna o que nós vivemos. E ao mesmo tempo essa coisa… o DOver era um nobre, um aristocrata…o Lirio Ferreira está fazendo um filme, eu não sei se ele vai manter esse nome, que se chama Sangue Azul é um filme sobre circo, sobre a história de um homem bala. Quando eu vi o título sangue azul, é o próprio dover tangará ele chegava ao ponto de ser quase aquele personagem da televisão que é o mendigo mas que é um mendigo fino, que sempre está contando vantagem. Ele não era essa caricatura, mas essa aristocracia de quem não tem nada, de quem vive na rua, mas que tem uma dignidade que muita gente bem na vida, bem profissionalmente não tem. Isso está acima do mito que ele criou, do que voa alto demais e que cai. O próprio Icaro, ele é a própria encarnação daquele que voa, que foi muito alto e por isso se espatifou. É muito forte esse rapaz, esse rapaz que nos deixou a pouco tempo. Engraçado, tem um texto do Kafka, a primeira dor, que é sobre um trapezista que eu li e reli… e não conseguia entender e só consegui entender quando eu li pensando no DOver, acho que o Pelicano é do Bodelaire num é? Um poema do Boudelaire. Os grande poetas, os grandes escritores, os gregos…eles tocaram nessa… questão que está dentro da gente né… e que o palhaço tb encarna muito do que ri com vontade de chorar, essa contradição do que voa alto e se espatifa no chão… o DOver foi tudo isso… e uma coisa dele adquirida da família Tangará, vc encontra a Laudi, encontra Vic, Durbes, vc entende de onde vem a aristocracia do dover. Essa aristocracia, este sangue azul, essa nobreza do artista circense. Acabamos de perder tb o Sr Barry, que encarnava isso tb, ele o Senhor Roge, o Senhor Maranhão..eles encarnam isso, essa nobreza.

Eu fiquei na escola de circo por causa disso por causa dessa nobreza, eu falei, eu quero ser isso, eu quero ter essa dignidade. O ODver era uma lição disso, dessa dignidade.

No circo vc é adotado pelos teus mestres, p/ vc passas a fazer parte daquele mundo, vc passa por um processo de iniciação, um processo de aceitação, em uma escola de circo vc precisa passar por esse processo de iniciação, vc precisa ser adotado por um mestre p/ vc ser daquele mundo. Se eu estou aqui é porque eu fui adotada, pelo senhor Roge, pelo Savala, pela Amercy…eu passei a fazer parte, como vc está sendo adotada. Eu passei a fazer parte daquele mundo. Vc não está na escola de circo mas eu sinto que vc está passando por esse processo, vc está sendo adotada pela Marília, pelo Puchy, pela Loren… estas coisas vc pode não estar na academia, não estar aprendendo uma técnica mas isso vc é uma herdeira desse mundo. Como eu sou tb uma herdeira, acho que essa responsabilidade a gente tem forte, de honra-los. De Honrar Dover Tangará, de honrar Dirce Militello, de honrar o Senhor Barry, de honrar o Piollin de honrar esse povo do circo.

Obrigada pelo seu trabalho. Obrigada pelo encontro.

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por circoparaki

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