Vic Militello e Laudi Fernandes

O FIM

Das experiências colhidas

ao longo da grande caminhada, se aprende

que tudo é quase nada…

É o sorriso que foi dado

ao semelhante caído na calçada

É a mão ao amigo

estendida e não negada…

É comparar o passado e o presente.

É ver a flor brotando, colorida,

que nos enfeita na hora da partida…

É se olhar para dentro, consciente.

É ver que tudo começa e acaba de repente…

(Do livro “Terceiro Sinal” de Dirce Tangará Militello)

Foi com este texto que Dirce Tangará Militello se despediu na última edição do Jornal do Circo. “Acredito muito que ela deu sua missão por encerrada. Ela comandou seu coração e parou, como faziam os índios. O velho Tangará, Benedito Marques Ribeiro era índio.” diz Vic Militello, filha de Dirce. “A mamãe sempre se despedia das pessoas dizendo Até de repente…!” diz Laudi Fernandes, a outra filha de Dirce.

A entrevista das duas foi bem divertida. Antes de começarmos, Vic me contou que foi “a Dircinha” (sua mãe) que começou com essa história de duas cantoras cantarem uma de costas para a outra. O que aconteceu foi que um dia, as duas, uma loira e outra morena, se olhando tiveram um ataque de riso. Aí resolveram cantar apoiando as costas… e isso virou moda.” Por acaso, Vic é loira e Laudi é morena e elas estavam quase posicionadas como “a loira e a morena”.

As duas são filhas de Dirce Militello, a idealizadora do projeto do terreno para estacionamento de trailers de circenses. Dirce Militello era irmã de Dover Tangará e além de Vic e Laudi teve mais dois filhos, Carmem e Humberto.

“a mamãe teve a felicidade de saber que o projeto que ela tinha lutado tanto para que fosse reconhecido tinha sido aprovado pelo Quércia que na época ia entrar como prefeito da cidade de São Paulo e ele prometeu que se ele fosse eleito ele ia fazer acontecer esse projeto da Escola Picadeiro p/ todos os bairros de São Paulo. Na ocasião era a Dra Alda Marco Antonio que era a Secretaria de Cultura do Governo Quércia e infelizmente ele entrou p/ governar no dia 1 de janeiro e a mamãe faleceu no dia 10 de janeiro. Ela não pode ver realizado, mas soube que iria existir. Ela ganhou o terreno para realizar a primeira escola neste terreno e o estacionamento de trailers. O Humberto Militello, outro filho dela, é arquiteto e já tinha o desenho pronto pra colocar junto com o projeto. O desenho das cabines, dos dormitórios…era um projeto maravilhoso.” Diz Vic Militello.

Vic Militello

“Toda a nossa família é de circo, desde os Fernandes, os Militello, os Tangará, os Marques Ribeiro…os que descendem deles… a gente abraça uma população enorme de circenses. Até hoje os jovens Tangarás são considerados os melhores naquilo que fazem.”

Laudi Fernandes

Vic conta que Dirce tinha outros projetos p/ circenses, “o próprio Jornal Circo Show era um projeto promovia os circenses. A minha mãe tinha um lado meio assistencialista, meio assistente social, por exemplo ela queria colocar dentes nos artistas, ela achava que um artista sem dentes não pode entrar no picadeiro. Sem uma roupa bonita não pode entrar no picadeiro…. ela lutava por esse lado…  eu sempre lutei mais pela arte do circo, a assistência social tem que ser de outro setor.  Minha mãe batia nessa tecla, com isso ela fez grandes coisas nesse sentido.”

“o velho Tangará”

“A Dirce nasceu no circo. O velho Tangará quando entrou p/ essa história do circo, ele era maestro, ele foi primeiro p banda do circo, antes de casar e de ter filhos, depois ele conheceu a dona Nenê e carregou ela junto, porque ela tb já era de circo, ela é neta de artistas ciganos” conta Vic.

Laudi complementa: “Minha mãe já nasceu no circo. Os circos daquela época nem todos tinham barraca, barraca era uma coisa de status no circo.  Então eles moravam em hoteizinhos, quartinhos abandonados da cidade, eles alugavam por um mês. Quem tinha uma barraca, um trailer já tinha um status maior”

Vic conta que Dirce fez trapézio no circo, “ela fez tudo e ainda cuidava dos irmãozinhos, fazia comida, tinha 9 irmãos, ela teve filho junto com os irmãos, p/ vc ter uma ideia, eu mamei na minha avó e o Durbes mamou na minha mãe. O Dover mamou na minha mãe, é irmão de Leite dela (da Laudi) porque nós temos a mesma idade Eu tenho a idade do Durbes, ela do Dover e a Carminha do Dalton somos irmãos de leite. Minha avó teve 9 filhos.

Dirce Tangará Militello e o marido, o palhaço Chororó

“Meu pai amava muito os Tangarás, cuidou destes irmãozinhos da minha mãe, que tinham a nossa idade, até morrer. Meu pai morreu em 1970, com 51 anos. Nós morávamos na Turiassú, quando eles vinham p/ SP eles vinham lá p/ casa e meu pai amava que eles vinham. Era um paizão, se sentia pai dos cunhados, que eram pequenininhos e ele ajudou a criar.”

“Meu pai é de família imigrante italiana, ele fugiu com o Circo Piollin ele não era de circo, ele é Militello. Os Militello são artistas mas são de outro lado, ele era imigrante, queria ser ator, não sabia o que fazer aí saiu com o circo.Ele foi a pé da Vila Mariana até Santos atrás do Circo Piollin.”

“Os Militellos que foram atores, foram atores depois do meu pai. Ele queria ser ator desde pequeno mas só conhecia circo, então foi fazer circo. Foi um grande ator no Circo-Teatro Liendo. Ele era um galã, ele fazia o Tarzan, o Sansão. E no pavilhão dele ele era ator principal, arrastava multidões. Ele criou um pavilhão. Conheceu a mamãe no Circo Liendo. Aí no pavilhão dele ele fazia o galã e ela a mocinha.Ele era um grande formador de plateia com as peças dele. Onde ele passou com o pavilhão, são os lugares que mais gostam de teatro até hoje, a Vila Mariana, a Barrafunda, Perdizes, Bom Retiro… Perdizes a gente não pode esquecer porque nas Perdizes ele fez muito sucesso. Ele teve os maiores fãs que vc pode imaginar, tem gente que me para na rua  e pergunta vc não é a filha do  Chororó, comenta Laudi.”

Neste momento comento que moro em Perdizes atualmente.

e a Laudi comenta que o pavilhão do Chororó “fez muito sucesso na Rua Cayowaa.”   EU MORO NA RUA CAYOWAA!! Eu e a outra pesquisadora moramos na Rua Cayowaa, somos vizinhas!! Que coincidência!!

e ela comentou “Então vc pergunta para os antigos da sua rua sobre o Pavilhão Chororó, pergunta p/ alguém que viu e conhece essa história, talvez isso explique vc gostar tanto de palhaço sem ter alguma referencia na família.”

Dirce Tangará Militello e Humberto Militello em cena na novela Meu Pé de Laranja Lima da TV Tupi

“O pavilhão era itinerante, era como um circo mas não era de lona, era de zinco, era desmontável. A Avenida Sumaré era um rio, de um lado tinha um terreno onde o papai punha o pavilhão do outro lado já era a rua Turissu. Por ali a gente ficou muitos anos. E na rua CAyowaa ele fez o maior sucesso, o pavilhão ficou 4 meses trabalhando por lá. Ele era rival na época do pavilhão do Simplício, que era o Icaraí. Aí o Icaraí era Globo da época e o papai era o SBT. Acho que por isso que o Gibe gostava tanto do SBT.  O Simplício era a Globo porque era muito chique, e o papai era mais simplório, era o SBT.”

Gibe foi marido da Laudi. Gibe também era palhaço e fez parte da minha infância pois foi o Papai Papudo do Programa do Bozo!

Lembro com carinho do bordão “Que horas são criançada? Cinco e Sessenta.” Foi divertido ouvir a Laudi contar histórias do Papai Papudo. Ela disse que no início ele era bem gordo, o figurino tinha muita espuma. Mas como gravavam muitas horas por dia, ficava muito calor…então ele foi “emagrecendo” o figurino!!

Gibe atuando como palhaço, antes do Papai Papudo.

Laudi conta que o último show que o Silvio Santos fez com “o peru que fala” nas periferias de São Paulo foi no pavilhão do Chororó. “E o macaquinho dele mordeu o dedo da minha mãe, ele quase arrancou o dedo dela.”

Vic conta que nunca gostou de morar no circo, “essa coisa que eles gostam de morar no trailer eu não gostei nunca, eu sempre quis uma casa de tijolo, sabe  eu queria ser a Dóris Day que o marido chega com a pastinha. Eu acho que eu sou muito urbana, não gosto de viajar… agora fui acabar morando em Itanhaém cheio de cobra, de sapo… Eu fui criada com isso mas eu não gostava, eu gostava de uma casa sem bicho, com parede. Aí fui morar na Turiassú. Quando eu larguei o circo era p/ não voltar mais a ser artista, era p morar naquela casa.Eu morei no RJ numa casa sólida, na Turiassú era uma casa sólida, eu gosto disso. Uma casa sólida. Comprei agora no Butantã uma casa sólida. Eu não podia ter isso no circo..”

Laudi comenta: “eu não paro até hoje, cada hora eu to num canto. Depois que eu casei eu fiquei mais sólida que ela. Eu parei e ela continuou viajando.”

“Eles não me deixam ficar, por isso que eu te falei que eu to parando com essa coisa de artista…vc vai fazer um filme lá em Porto Alegre, lá em Minas Gerais… um é frio o outro é calor. A minha vida foi isso, estes 20 anos que eu fique no Rio foi só isso, sair de lá. Agora eu parei em uma casa sólida e quero ficar. Eu não tenho saudade disso. Eu morro de saudade das pessoas, sempre depois do espetáculo, todo mundo comendo junto, parecia sempre festa.  Por isso que eu adoro fimagem, porque filmagem ainda é assim, parece que tá todo mundo acampando, adoro isso.Televisão eu fiz muito mas sempre a contra gosto, é muito horário é muita disciplina.” conta Vic.

LAudi conta: “Quando a gente estava na Rua Cayowaa a gente estava sem moradia, a gente alugava quartos ali, e tinha uma padaria lá. O pão saía meia noite, aí o padeiro vendia p/ gente antes da hora, o pão estava quentinho e a gente comprava a mortadela com o pão quente… isso eu não esqueço… foi uma temporada muito legal…”

Vic comenta: “A lembrança que eu tenho dessa época é que a gente tinha um porquinho que se chamava Fuxico… mas a gente não sabia que eles estavam engordando ele p/ o Natal. Aí no Natal eles mataram o Fuxico… A gente só chorava e ninguém conseguiu comer o porquinho. Porque a gente tratava ele como cachorrinho, aí tinha o porco na mesa com o tomate na boca, era um velório!”

Vic onta que Chororó Papai faleceu muito cedo, com 50 anos. “Ele morreu de mágoa, artista quando começa a ficar esquecido… Ele tinha muita preocupação porque tinha vendido o pavilhão por causa da televisão, aquele envolvimento, aquela fantasia, ele fez muito sucesso na televisão… Ele fez o sargento Garcia, numa novela com a Lolita Rodrigues, com o Aguinaldo Rayol.. ele ficou muito famoso, o personagem fez muito sucesso na época. E depois disso ele foi colocado meio de lado, o canal 9 faliu, a Tupi também e ele não tinha condição de fazer outros canais. Ele tinha vendido o pavilhão em que era o astro principal aí tinha que fazer pequenos papéis no cinema e na TV p/ sustentar a família. Fazem isso com os artistas até hoje. Você faz um baita sucesso e depois eles te colocam p entregar um telegrama em cena, te humilham. Isso foi sufocando ele, porque o artista é muito vaidoso e é muito emotivo tb. Artista é emoção né. Aí ele foi se entregando, foi se entregando, morreu de angustia, morreu de tristeza de ter que calar a arte dele. Porque ele não tinha onde demonstrar e ele era um soberbo artista, morreu precocemente.”

“Minha mãe continuou, depois disso ela fez “Gota d´água”, fez “Ópera do Malandro” no teatro. Fez “Em Família” com o Paulo Autran com direção do Antunes Filho.”

“A mamãe sempre foi a estrela da Cia. Só entrava no brilho, no salto, ela era muito bonita, ela só podia fazer a bonita. Quem era caricata era a a Irma dela. A Adjani era ótima, ela fez tudo mas fez pouco porque o marido casou e parou. O marido não deixa até hoje.Ela fazia quando era pequena e no pavilhão do papai, quando acabou o pavilhão eles tb se retiraram.”

“Quando o papai vendeu o pavilhão a família, cada um foi p um lado tratar da vida.

“Foi uma das razões tb dele ficar angustiado, ele perdeu a Cia dele né, ele criou estes monstros né, depois é difícil pegar outros p/ ensinar. Já tinha a estrela da Cia, já tinha a caricata, eu fazia o brotinho da Cia… Ele perdeu todo mundo… até criar outra Cia com essas características, ele achou que acabou mesmo, ele não achou que ia recomeçar.”

As duas contam que Dirce Tangará Militello teve uma Associação de Circo. “Tudo isso antes do Sated, depois ela foi convidada a representar o circo no Sated, aí ela foi terminando o projeto por lá mas o projeto veio antes.”

“Ela era produtora, diretora, idealizadora. Minha mãe não se arriscava muito numa produção, fazia pequenos financiamentos, pequenas produções…  eu tenho impressão que houve um tempo que a mamãe representou não tinha tanta ajuda, depois da mamae o circo começou a ter a ajuda, depois dela falar sobre o circo.Ela representava muito bem o circo, a porta da TV sempre abriu muito p/ a minha mãe falar sobre o circo, porque ela veio do circo p/ a televisão, então ela tinha muito acesso, e ela falava, ela era a voz do pessoal do circo na televisão. Com certeza as leis de incentivo vieram depois da mamãe. Ela pedia apoio, batia de porta em porta, o prêmio do circo foi ela que criou, o Troféu Picadeiro. Não existia isso, ela e meu tio Decio que criaram.”

“Hoje as pessoas que produzem circo não são de circo, ainda não foi dado o direito das pessoas que fazem circo produzirem circo.”

“A mamãe deu aula de acrobacia, ela era acrobata, ela tinha a técnica. Ela deu aula na Escola Piollin de Artes Circenses. No pavilhão do meu pai ele já ensinava as pessoas, não só os próprios artistas mas todos que quisessem aprender, ele era um democrata, ele não omitia informação. O meu pai falava uma coisa muito bonita: quando levavam um texto muito elaborado, que era de difícil compreensão p/ as crianças da periferia pu p/ gente mesmo…ele dizia: eu trago o texto, ensino e vcs vão se comportar muito bem quando vcs forem lá no Teatro Municipal de São Paulo. Ele era um professor na periferia.Ele era um formador de plateia, esse era o ideal dele. Ele achava que estes teatros itinerantes eram muito bons porque educavam a periferia, hoje em dia a periferia não tem aonde ir. Aonde vai o jovem de 14 anos da periferia aprender teatro e circo? O que ele aprende com a televisão? Hoje em dia aqui na periferia tem os barzinhos, que eles vão aprender a beber, a fazer outras coisas e não vão aprender a fazer nada. Quando chegava um circo, um pavilhão nestes lugares era uma festa. Quando a gente ia embora, eram ídolos formados, os galãs tinham que sair escodidos da loucura das meninas, o palhaço virava um ídolo incrível. Os bordões todo mundo falava.”

“O Gibe tinha uma mania de jogar a bengala no chão e falar “ô susto”. Quando ele saía do bairro a criançada toda falava “ô susto, ô susto…” que nem o “cinco e sessenta”, as crianças eram inocentes, aprendiam e se comportavam.”

“No primeiro dia nestas periferias tinha que revistar, porque era periferia das bravas, no segundo dia, o pessoal já estava bem amolecido aí meu pai levava uma comedia bem rasgada depois uma alta comedia, depois um drama…ia amaciando…aí o público já queria prestar atenção. Quando terminava, os bandidos já queriam trabalhar lá, entregavam a arma, ficavam amigos de todo mundo. Todo mundo respeitava todo mundo era muito bonito o trabalho dele. Ele era um educador, um educador da periferia. Ele era um idealista, tinha um ideal, que hoje em dia eu não vejo. Todo mundo que quer começar, quer fazer televisão porque quer comprar uma casa com piscina e compra mesmo… e depois se afoga porque não dá conta de manter, aí tem que tirar foto nua, faz p/ manter padrão e depois se mata… o artista não tem estrutura p ser jogado aos leões.”

Vic comenta que continua com o ideal do Chororó. “Quero fazer o museu do Chororó, fiz muita coisa em nome da Dircinha. Não é assistencial, é artístico.É trazer p/ nós a verve do artista do picadeiro, o tanto que ele ama fazer aquilo, ele tem uma voz p/ cinco mil pessoas. Tem que ter um diafragma e não perder a naturalidade falando mesmo como se fosse uma ópera, o gestual, a elegância, como se fosse um baile. Essa arte do picadeiro que eu levo p/ palco.”

“O Dover era dependente total da mamãe e quando ele tinha as crises ele dormia do lado dela. Aí ela dizia, eu tenho esse projeto dos artistas porque veja bem o tio Dover, a hora que eu for embora, quem vai cuidar dele? Então colocando os circenses no terreno, ele vai ter sempre a Cia, vai ter segurança…quando ela faleceu, na cabeça do Dover, vc vê que ele não saia da São João, do Paissandu e do terreno… e todos esses projetos depois da mamãe, ele estava sempre envolvido…ele queria fazer a palavra da mamãe valer…”

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por circoparaki

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