às margens da marginal

Às margens da marginal

Dover Tangará mora num fusca, dentro de um condomínio de prédios populares, na beira da Marginal Tietê. Quando conheci o condomínio de prédios, ele estava sendo reformado, os carros dos moradores estavam sendo cadastrados e Dover não poderia mais ficar com o carro estacionado ali. Dover estava sendo expulso. Além do fusca, onde dorme, ele tem também um trailer, onde guarda algumas coisas. Os dois carros estavam ameaçados.

Foi quando conheci o Cingapura. O território era de guerra, homens uniformizados com óculos escuros cavavam buracos e faziam barulho com britadeiras, muita terra e uma faixa que isolava o fusca. Os homens precisariam passar cimento no lugar onde seria a ciclovia do condomínio, mas o carro do Dover estava no caminho. E muitos vizinhos comemoravam a provável retirada. O carro estava espremidinho e isolado. Quando encontrei o trapezista, chateado, ele tentava me explicar a situação. Tentando conversar em meio ao cáus, pedi que fôssemos para outro lugar, porque com o barulho da marginal eu não conseguia ouvir o que ele dizia, e ele “Marginal. Você sabe o que significa marginal? É aquele que está à margem, que não consegue entrar, que é expulso, que vive na beirada”. Sim, ele estava sendo expulso. Sim, ele estava tentando sobreviver num único pedacinho que foi deixado para ele. Mas comenta que quer sair dali com as próprias pernas, que quer levar o trailer para algum lugar e deixar que levem o fusca para um estacionamento da prefeitura. E isso era urgente. O que diziam é que até o final da semana um guincho buscaria os veículos.

O conjunto de prédios é bem próximo ao Centro de Tradições Nordestinas. Dover comentou que era muito amigo do dono do parquinho de diversões e que talvez seu trailer pudesse ficar ali. Fomos juntos até lá. Mas não. O terreno era muito pequeno, só cabiam mesmo os brinquedos do parque… o trailer não poderia ficar.

Dover pensou que talvez o Circo dos Sonhos, que cumpria temporada num terreno ali bem próximo pudesse ajudá-lo de alguma forma. Fomos até lá. Eu nunca tinha entrado nos bastidores de um circo e acabei me perdendo do trapezista em meio a vários tecidos coloridos e portinhas de pano. A cena parecia muito com as cenas dos filmes do Fellini, o trapezista de um lado, assistindo encantado a apresentação e eu do outro conversando com os produtores. Eu, de jaleco branco me apresentava como produtora e palhaça e explicava toda a situação. Eles me mostraram o espaço onde ficavam os trailers e me contavam o quanto era caro manter cada trailer, o quanto era difícil manter um espaço para o circo na cidade.  E de novo, flopamos. Flopar para o palhaço é um verbo bem conhecido, significa fracassar, falhar. E o que todos recomendavam é que ele levasse o trailer para o “terreno do Elmo”. Um terreno um pouco longe do centro onde vive um loneiro que permite que alguns circenses morem ali com seus trailers. Dover dizia que não gostaria de ir pra lá. Dizia que se fosse pra lá estaria indo para o cemitério do circo… que tinha vários amigos que haviam morrido lá, inclusive um domador importantíssimo… mas… foi a opção que nos restou.

Voltamos para o condomínio e deixamos combinado que ele iria entrar em contato com o Elmo na semana seguinte. O trapezista-palhaço tentava sair marginal, deixar a margem.

Na semana seguinte entrei em contato com as assistentes sociais da secretaria da habitação. Elas eram responsáveis por todas as melhorias que estavam acontecendo no condomínio e também deveriam cuidar da retirada dos carros. Munida de uma história incrível e de dois livros, converso com elas.

Explico que aquele terreno, no início da década de 90, foi destinado aos circenses para criação de um estacionamento de trailers.  A idéia inicial, inspirada em projetos do exterior, era um espaço onde diversas famílias de circo estacionariam seus trailers durante o período em que aguardavam novos contratos. O projeto aconteceu durante um período. Em seguida o terreno foi invadido e logo depois se tornou um Cingapura. É por isso que atualmente muitos circenses vivem naqueles prédios. Dirce Tangará Militello, irmã de Dover, foi a responsável pela criação e idealização do projeto. Falecida, o projeto foi concretizado pelo SATED. Após a invasão do terreno a prefeitura cadastrou os trailers para que eles tivessem direito a um apartamento no Cingapura. Neste período Dover Tangará estava internado num hospital psiquiátrico e por isso não teve direito a um apartamento. Segundo contam, outra pessoa cadastrou o trailer do Dover em benefício próprio. Hoje ele vive ali, mas dentro de um fusca. O irmão da maior responsável pela conquista do terreno estava sendo expulso do terreno… que ironia do destino.

Além da história entrego os livros “O filósofo voador” e “Largo do Paissandu, onde o circo se encontra” e deixo um pedido que qualquer coisa que fosse acontecer com o carro ou com o trailer que elas me avisassem com antecedência porque já estávamos providenciando a saída dos carros de lá.

 

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