O momento da crise

O momento da crise

Dover vive num fusca. Um fusca organizado, com bancos e um espaço para guardar suas coisas. Num dia, chego no Cingapura e seu carro parecia um camarim abandonado. Muitos objetos acumulados, carros de brinquedo, sapatos, caixas de papelão, estruturas de ferro, bonecas, roupas velhas. A imagem era poética. Ele estava entrando em crise. Durante esse período ele acumula coisas, lixo do ponto de vista de uns, “possibilidades de cenários” do ponto de vista dele. Quando pergunto porque guardava tantas coisas ele diz “vi na rua e pensei que poderia fazer um número com isso!”. De novo, de que loucura estamos falando? Guardar roupas velhas para possíveis figurinos, caixas e brinquedos para possíveis cenários é uma coisa comum para um artista. E ele me diz que está muito triste, diz que é a última cena do palhaço, que o circo está pegando fogo e esse vai ser seu último número. E, em crise, sua lucidez e seu “sentir demais” ficam ainda mais latentes. Diz que o mundo está acabando, que fica olhando a marginal e imagina que em determinado momento não vão caber mais pessoas no planeta. Diz que está sendo expulso, que se sente morto/vivo, que o mundo não tem mais lugar pra ele, que se sente enjaulado. E de novo conversamos muito, sobre a vida, sobre o circo, sobre o tempo. Ele diz que não se sente palhaço, que se sente idiota e que palhaço não é idiota. Diz que sempre provocou riso nas pessoas, mesmo quando estava internado no hospital psiquiátrico, fazia as pessoas rirem. Conta que um dia precisou substituir o galã num espetáculo de circo-teatro e que quando entrou em cena o público caiu na gargalhada. Ele não entendeu porque todos estavam rindo, nem o mestre de pista que precisou pedir silêncio para que o espetáculo pudesse continuar. Dizia que não era palhaço, era idiota. Que sempre gostou dos abandonados, inclusive dançava com as meninas mancas nos bailes. E discutimos sobre qual seria a diferença entre o palhaço e o idiota. Será que o palhaço não se sabe palhaço? Ou o palhaço continua tentando, mesmo depois do fracasso? E conversamos sobre o arquétipo do palhaço, aquele que erra e faz rir. E conto algumas mazelas, de “palhaça de vida”, que sou. Conto que, como ele, faço as pessoas rirem e só vou perceber o porque bem depois. Um dia, numa festa de casamento, muito linda com um vestido incrível, percebo que muitos me olham rindo, olho para o meu pé e vejo um rolo de papel higiênico fazendo a trilha do banheiro até o centro do salão.  Sim, não era piada, era a minha vida. Num outro dia um moço muito bonito pediu meu celular, e eu, emocionada e vermelha, entreguei o aparelho na mão dele, não entendi que ele queria o número do telefone e estava me paquerando. Sim, continuei solteira. E Dover ri e diz que fica na dúvida entre quem é mais doido, eu ou ele. Diz que quando conversa comigo fica parecendo que ele ainda faz parte do mundo. Sim, somos todos possíveis! O planeta abriga muitos modelos diferentes de pessoas! Ele diz que eu falo muita besteira mas diz que isso faz bem pra ele. E ele vai comigo até o carro. No meu carro tem um gafanhoto de plástico, peguei para uma cena e muitas pessoas que entram se assustam. E Dover comenta: no seu carro é gafanhoto de brinquedo, no meu é rato. E depois disso tudo, muita coisa iria acontecer.

 

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