Um presente + um sapato

Um presente + um sapato = dois presentes

O Trapezista foi virando palhaço. Palhaço no sentido mais digno da palavra. Palhaço enquanto aquele que é desajustado e inocente, que erra porque tenta se ajustar às regras impostas pela sociedade e continua tentando, continua tentando, continua tentando… Enquanto aquele que fracassa e escancara toda a fragilidade humana que todos deixam bem escondida. O sapato do palhaço é grande porque não é dele. O sapato é um dos sinais da inadequação – é grande demais pra ele.

Então chega o trapezista. Com um sapato maior que o próprio pé, com um terno meio sujo e um chapéu. E todos riem. E ele sabe que todos riem. “Já estou de sapatão e de chapéu, só falta o nariz!”. O trapezista se sabia palhaço! E afirmava toda a sua diferença. E continuava tentando viver dentro deste mundo cheio de regras e de jeitos de ser e de não ser. Alegre porque se sabia possível!

E no bolso do trapezista-palhaço uma boneca Barbie. “Achei ela na rua, olha a roupa, parece roupa de circo.” Sim, a boneca estava com roupa de circo. E ganhei a boneca de presente. E ele me promete um chapéu. Como eu era palhaça, precisaria de um chapéu. Ganho o chapéu um tempo depois. E ganho também a consciência de que por mais impotente que sejamos diante da realidade cruel ainda temos a capacidade de sonhar e encontrar uma boneca com roupa de circo na rua.

 

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