Eduardo Rascov

OS DESDOBRAMENTOS DE UM ENCONTRO INUSITADO NO ESTACIONAMENTO PARAKI

Era o final de 2000. Todo mundo falava do terceiro milênio que se iniciava. Em maio eu havia começado a trabalhar na Fundação Memorial da América Latina. Fazia o trajeto do bairro de Pinheiros (onde morava) a Barra Funda (onde trabalhava) todo dia. E guardava o carro perto da minha casa, na rua João Moura, em uma garagem comercial. Sabem como o lugar se chamava? Estacionamento Paraki.

Um dia aconteceu algo que mudou minha vida. Um homem de rua me acenou e estendeu a mão! Ele estava sentado em um murinho ao lado do Paraki. O pulso desse encontro ainda pulsa. Os desdobramentos dele não param de se renovar. Esse aperto de mão rendeu um livro, um documentário, uma pesquisa e esse blog. Além de uma amizade tão improvável quanta intensa. Por meio dela, mergulhei em um universo paralelo, que nem desconfiava existir – o maravilhoso mundo dentro da lona circense. Detalhe: eu nunca tinha ido a um circo antes.

O homem em questão, logo descobri, chamava-se Dover Marques Ribeiro, mas todos o conheciam por Dover Tangará. Ele marcou época em seus voos de trapezista, nos anos 60 e 70. A forma como nos conhecemos, a sua trajetória trágica e o seu carisma e magnetismo pessoal foram contados por mim no romance “O Filósofo Voador”, publicado pela editora Terceira Margem, em 2009. No ano anterior, a obra havia ganho o ProAc de literatura.

No mesmo ano, orientado por Joelma Costa, então presidente da Asfaci, escrevi um relatório sobre Dover Tangará para a Funarte. Contei suas glórias do passado e as agruras do presente. Contei os longos períodos de depressão, o sofrimento sem um diagnóstico preciso. O objetivo era concorrer ao Prêmio Carequinha de Honra ao Mérito. Com os15 mil reais que ganhou, Dover comprou, entre outras coisas, um trailer para morar, onde está até hoje, próximo ao Cingapura do Bairro do Limão.

Em 2010 um grupos de alunos de jornalismo da ECA-USP me procurou – indicado por Verônica Tamaoki, diretora do Centro de Memória do Circo – para uma entrevista de rádio. Eles queriam saber mais sobre esse paradoxo: como seria possível que o maior trapezista de todas as épocas, o rei das alturas dos áureos tempos, acabasse por  viver ao rés do chão, literalmente no meio-fio, como contei no livro?

Esse mesmo grupo de uspianos – capitaneados por Leonardo Martin e Felipe Maeda – voltou a me procurar no ano seguinte. Desta feita, a ideia deles era fazer o TCC (trabalho de conclusão de curso, na ECA) sobre o personagem. Orientei-os a irem ao “Sem Terra” (como é conhecido pelos circenses o Cingapura do Bairro do Limão) que todos os elementos para uma boa história estavam lá. Eles fizeram um bom trabalho: entrevistaram a Marília de Dirceu, ex-mulher de Dover, entre outras pessoas envolvidas, e o próprio Filósofo Voador. Por fim, editaram um documentário correto, intitulado “Entre a Lona e o Meio-Fio: o Voo que não Acabou”.

Também em meados de 2011 recebo um telefonema da Verônica Tamaoki literalmente me “convocando” para uma reunião no Centro de Memória do Circo. A pauta era “como ajudar Dover Tangará quando ele caísse doente novamente”. Sabia-se que todo ano o Filósofo passava alguns meses deprimido. Nesse período, ele se isolava e seu desamparo e fragilidade se acentuava. Toda uma equipe de saúde fazia parte dessa reunião, incluindo psiquiatra, psicóloga e fonoaudióloga. Eles eram do Nasf – Núcleo de Apoio à Saúde da Família – que atendia o bairro em que fica o “Sem Terra”.

Quando a Verônica começou a ler um pequeno texto que eu havia escrito sobre o Dover, para a exposição que inaugurou o Centro de Memória, notei uma das profissionais ali presentes chorando copiosamente. Ela já havia lido “O Filósofo Voador” e travado os primeiros contatos não só com Dover Tangará, mas com os amigos circenses dele dos “Sem Terra”. Foi assim que conheci Priscila Jácomo, fonoaudióloga que posteriormente se tornaria minha parceira de pesquisa no projeto “Espaço de Cultura Circense Dirce Tangará Militello – passado – presente – futuro”.

Logo percebi que, além de emotiva, Priscila era uma produtora ativa e cheia de ideias. E tinha um pé nas artes, pois era atriz e palhaça. “Tanto circense morando junto, vamos fazer um filme sobre isso?”, ela me disse. É claro que gostei da ideia, era um desdobramento natural do meu livro. Algum tempo depois, Priscila me apresentou à Mariana Gabriel, que havia estudado cinema e trabalhava em um canal de televisão. Melhor: Mari era filha de uma circense que havia abandonado a barriga do circo ainda criança. A família fechou o Circo Guarani. Ficou certa nostalgia difusa e os cacos a serem juntados. A Mari tem saudades de algo que ela não viveu e sobre o qual sabe muito pouco. Tanto é que também estuda a arte do palhaço. É claro que uma jovem inteligente à procura das suas raízes iria muito bem em nosso projeto.

Logo percebemos que fazer um documentário é uma empreitada grande e custosa. Seria necessário antes fazer uma pesquisa criteriosa, conhecer os personagens e levantar informações e documentos. Foi então que nós três resolvemos primeiro desenvolver o projeto de pesquisa “Espaço de Cultura Circense Dirce Tangará Militello – passado – presente – futuro”. O próximo passo seria inscrevê-los nos editais de fomento à pesquisa do Carequinha/Funarte e do ProAc. O resto da história está sendo contada neste blog.

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