um dia na vida do Filósofo Demais

Vocês sabem por que se chamou Dia D+? Claro, esse “D” é de Dover.  Também é de “Dia D”, o famoso dia em que os aliados desembarcaram na Europa ocupada pelos alemães, em 1944. Boa parte dos soldados saíram de um porto inglês chamado Dover. Por certo, esse nome aparecia muito nos jornais daquela época e deve ter influenciado o velho Benedito Marques Ribeiro a batizar o caçula de Dover cerca de um ano depois. Os nomes dos outros filhos também começavam com D: Dirce, Dândalo, Dujenir, Djalma, Dalton, Darci, Durbis… Como não seria apenas Dover o homenageado, mais incluiria a Marília de Dirceu e a Iracema Cavalcante, que tal “Dia D+”!

A ideia surgiu quando Felipe Maeda me levou a cópia do documentário “Entre a Lona e o Meio-Fio: o Voo que não Acabou”, que ele e a sua turma da ECA-USP haviam acabado de editar, contando a trajetória de Dover Tangará. Não foi fácil para eles realizar o filme, pois entre agosto do ano passado e fevereiro deste ano o Filósofo estava deprimido, não queria falar com ninguém e se isolava dentro de um fusca velho, estacionado nos Sem Terra. Como terminar a película sem entrevistá-lo? O fim de ano estava se aproximando e eles precisavam entregar o TCC – Trabalho de Conclusão de Curso para finalmente se formarem…

Eu também havia recebido uma cópia do curta “Disk Homem do Saco”, feito por um grupo de alunos do curso de cinema da Universidade Anhembi Morumbi. Nele, Dover Tangará trabalhara como ator. Ele era o protagonista, o homem do saco. Ora, por que os dois filmes não podiam ser lançados no Memorial, conjuntamente? Seria uma forma de homenagear o trapezista. Um dia, almoçando com o palhaço Gelatina, ele sugeriu que o evento fosse na lona do Circo Paratodos. Fazia mais sentido.

Daí para frente, a noite de homenagens só fez crescer. Concordamos que seria legal incluir a Marília de Dirceu e a Iracema Cavalcante nessa festa. Imediatamente, Priscila e Mariana, as meninas que desenvolvem esse projeto comigo, passaram a colaborar na organização. À medida que entrevistávamos os moradores do Cingapura para nossa pesquisa, fazíamos o convite para participar do Dia D+. O próprio Dover reforçava o pedido. Nem era preciso, todos se prontificaram a homenageá-lo.

Chamei alguns amigos queridos para compartilhar comigo aquele Dia D+. E lá estava Dover em pé, no corredor entre as cadeiras, encarando frente a frente sua própria história na tela. E lá estavam os três, no palco, recebendo uma sincera salva de palmas de um público de circenses notáveis, que reconhece e valoriza seus mestres.

Para mim, esse foi mais um episódio intenso, entre tantos que marcam nossa convivência há mais de dez anos. Quando não está deprimido – o que acontece em cerca de metade do ano – o Filósofo percorre um circuito todo dia. Dorme nos Sem Terra, acorda bem cedo na manhã e vai até a saída da gráfica do Estadão, onde invariavelmente ganha o jornal esportivo Lance!. Com ele nas mãos vai até um bar e o troca por um café e pão. Em seguida toma o ônibus gratuito até o Memorial da América Latina. Chega lá antes de mim. É claro que conhece todo mundo. No Memorial, Dover conversa com os seguranças, com a velhinha da contabilidade, com o estagiário do administrativo, com as moças da limpeza e até com o presidente da instituição.

Depois do Memorial, o Filósofo tem alguns destinos certos, principalmente se for uma segunda-feira. Nesse dia vai primeiro à Abracirco, participar da reunião semanal de associados e paquerar a secretária. Depois vai ao Centro de Memória do Circo, conversar com a Verônica Tamaoki, que sempre o trata como rei. E termina a tarde no Café dos Artistas, ali mesmo no largo do Paissandu.

Ao longo da semana, Dover irá voltar mais vezes à Abracirco e ao Centro de Memória, mas intercalará com o Sindicato dos Artistas e, mais recentemente, com o Teatro Oficina, onde é amigo da turma que toca o projeto Bichigão, de alguns atores e do pessoal da técnica da casa. Ainda não topou com o diretor, mas o Zé Celso não perde por esperar.

Por Eduardo Rascov

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