Circo Paraki


O blog WWW.circoparaki.wordpress.com conta a história de uma comunidade sui genesis, que se formou em uma região da cidade de São Paulo. Aproximadamente 300 circenses, entre artistas e familiares, em algum momento, estacionaram seu trailer num terreno do Bairro do Limão, próximo à Marginal Tietê, nos anos 80 e início dos 90 do século XX. Esse estacionamento de trailers tornou-se um inusitado nicho circense, lugar de fixação de toda uma geração de artistas que antes era nômade. A prefeitura acabou por construir no terreno o Cingapura Limão. Uma parte dos artistas de circo aderiu ao projeto e ficou. A outra, retomou a estrada. Uns e outros viveram uma experiência social, política e cultural ainda não contada.

A importância do resgate histórico desse espaço e dos relatos dos seus protagonistas está no fato de que é preciso dar voz a esses sujeitos esquecidos da história recente do circo e da cidade. Por meio dos depoimentos dos artistas circenses, ex-moradores do estacionamento de trailler, acabamos esbarrando na própria história das transformações que o circo viveu no Brasil. Da lona que significava a itinerância ao “circo-novo”, com a chegada das escolas de circo a São Paulo, o que significou “estacionar o trailer”, como foi isso para estes artistas? Como eles se organizaram dentro desta nova realidade? De “estacionados” a moradores? O que significou deixar de ser nômade? Como se adaptaram às dimensões locais?

Sabe-se que a organização do trabalho circense e o processo de socialização, formação e aprendizagem formavam um conjunto, eram articulados e mutuamente dependentes. Não se tratava de organizar o trabalho de modo a produzir apenas o espetáculo, tratava-se de produzir, reproduzir e manter o circo-família. Se a criança era inserida desde cedo nas lides circenses sua formação como artista e cidadão se dava debaixo da lona. Com as transformações ocorridas neste contexto, todo um modo de viver foi transformado também, isso fica óbvio, mas será que alguns resquícios do circo-família não permanecem ali? Afinal, não é a vivência circense muito mais um devir criativo do que uma experiência estática?

A história que temos a contar neste blog começa quando vários circenses estacionaram seus trailers em um outro terreno vazio, próximo ao Anhembi, zona norte da cidade, em meados dos anos 80.  Alguns deles tinham decidido parar de rodar o país para apoiar um projeto que nascia em São Paulo: a criação do Circo Escola Picadeiro, em 1984, pelo trapezista José Wilson, a convite do diretor da ECA-USP, o encenador Miroel Silveira, e com o apoio do então secretário municipal de cultura, o dramaturgo e ator Gianfrancesco Guarnieri.

 Não foi fácil conseguir autorização para tal uso do terreno. Por estar sempre viajando os circenses não ligavam para representação política, tradicionalmente não se articulavam para reivindicar ou faziam isso de forma precária. Foi preciso que uma atriz egressa do circo e com algum sucesso no teatro, cinema e televisão – Dirce Tangará Militello – lutasse bastante para oficializar uma situação que estava se configurando de fato. A classe circense considerou uma vitória quando a então candidata a prefeita Luiza Erundina se comprometeu a apoiar essa causa.

Eleita, a prefeita Erundina decidiu construir o Sambódromo naquele espaço e ofereceu outro terreno, às margens da Marginal Tietê, na altura do jornal O Estado de São Paulo. O sonho dos circenses que para lá se transferiram – orientados por Dirce Militello e a presidente do Sated, Lígia de Paula – era que aquela terra erma se transformasse não apenas num estacionamento para trailers, mas também em um Museu do Circo, uma Escola de Circo e um Retiro de Artistas (uma moradia para velhos artistas de picadeiro, palco e tela que chegassem ao fim da vida sem teto, o que não é raro).

 Uma parte dos circenses lá estacionava seu trailer quando parava de viajar, até conseguir contrato para trabalhar em outro circo. Para eles, ficar no terreno da Marginal era uma situação temporária. Mas havia os circenses que lá pararam de vez. Desistiam seja pelas dificuldades da profissão, que só aumentavam, seja pela  idade que chegava. O fato é que naquele “estacionamento de trailers” se desenvolvia uma experiência nova. Antigos nômades se fixavam, tendo seus pares ao seu lado. Em um segundo momento, eles se viram rodeados de não circenses, que invadiram o espaço mais tarde. Como se construiu essa nova sociabilidade? Que estratégias utilizaram para sobreviver?

 Com a favelização do local e a construção de prédios do Projeto Cingapura, nos anos 90, muitos dos antigos circenses saíram de lá. Mas um grupo de dez famílias ficou. Como é o estilo de vida atual desses artistas que guardam na memória uma outra vida, feita de glamour popular e de deslocamentos? O deslocamento agora é na memória: como eles recriam o relato dessa passagem, dessa transição, que não foi só deles, mas de todo o circo e, por que não dizer, da sociedade brasileira?

Neste momento, a Secretaria Estadual de Habitação está reurbanizando o entorno do Cingapura do bairro do Limão. Assistentes sociais se reúnem com lideranças para mediar conflitos e atender possíveis demandas. A Associação de Amigos manifestou o desejo de criar um espaço para atividades artísticas no projeto de requalificação do conjunto habitacional. Não seria hora de, qual a Fênix mitológica, ressurgir redivivo o Espaço Cultural Dirce Tangará Militello? Talvez como Ponto de Cultura, não seria importante uma iniciativa que ofereça atividades para a comunidade do Cingapura, entre as quais, aulas dos saberes circenses guardados nos trailers/apartamentos?

 Este blog nasce, portanto, com a intenção de investigar, descobrir, recolher e contar essa história. Ele quer escavar nesse sítio arqueológico simbólico e, como primeiro resultado dessa arqueologia do imaginário, formar um banco de dados, um acervo documental que possa servir para futuras pesquisas. Mas o projeto “Espaço de Cultura Circense Dirce Tangará Militello – passado – presente – futuro” pode ter outros desdobramentos e se quer buscar apoio para isso. O projeto quer editar um documentário e um livro. Mais que isso, o projeto sonha concretizar o sonho de Dirce Tangará Militello, um espaço cultural que dê atividade digna aos circenses que lá vivem e ajude a garantir a cidadania aos moradores em geral do Cingapura/CDHU do Limão, especialmente as crianças.

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